Toda Copa do Mundo acontece a mesma cena.
As crianças começam a falar sobre o álbum, figurinhas, pacotinhos, trocas, coleções e junto com isso, muitas famílias chegam até mim dizendo:
“Mayra, meu filho está obcecado.”
“Ele quer comprar toda hora.”
“Está frustrado porque veio repetida.”
“Chora quando não consegue trocar.”
“Só fala nisso.”
E eu quero te contar uma coisa importante: talvez exista muito mais desenvolvimento acontecendo aí do que parece.
O cérebro infantil ama previsibilidade, recompensa e pertencimento
Vamos pensar no que existe dentro de um álbum de figurinhas.
Existe expectativa.
Existe antecipação.
Existe novidade.
Existe organização.
Existe coleção.
Existe troca social.
Existe recompensa.
Ou seja: o cérebro infantil é naturalmente atraído por esse tipo de experiência.
Quando a criança abre um pacote de figurinhas, acontece uma descarga de expectativa e recompensa no cérebro.
A dopamina participa muito desse processo.
É o famoso:
“Qual figurinha será que veio?”
E isso não acontece só com crianças.
Adultos também adoram experiências que envolvem surpresa, antecipação e coleção.
Mas quando isso vira sofrimento?
Esse é o ponto importante.
Porque nem toda intensidade é problema.
Mas precisamos observar quando aparecem:
- crises muito intensas
- dificuldade extrema com frustração
- rigidez
- sofrimento excessivo
- dificuldade de flexibilizar
- obsessão que impede outras atividades
Especialmente em crianças neurodivergentes, a relação com coleções pode ganhar uma intensidade maior.
Porque muitas delas encontram segurança em padrões, organização, previsibilidade e repetição.
E sabe uma coisa interessante? As trocas trabalham habilidades importantes
Muita gente olha para a troca de figurinhas apenas como brincadeira.
Mas, do ponto de vista do neurodesenvolvimento, existe muita coisa acontecendo ali.
A criança aprende:
- negociação
- espera
- flexibilidade
- tolerância à frustração
- comunicação
- reciprocidade
- resolução de problemas
- interação social
Ela aprende que às vezes ganha.
Às vezes perde.
Às vezes repete.
Às vezes precisa esperar.
E isso é vida real.
O problema não é gostar muito. O problema é não conseguir sair daquilo
Esse ponto muda bastante a forma como enxergamos comportamento infantil.
Gostar intensamente de algo não significa automaticamente problema.
Aliás, interesses específicos podem ser portas enormes para aprendizagem.
Na ABA naturalista, nós usamos justamente os interesses da criança como caminho para desenvolver habilidades.
Se ela ama figurinhas, talvez esse seja um excelente momento para trabalhar:
- linguagem
- matemática
- contagem
- organização
- interação social
- espera
- autonomia
O desenvolvimento não acontece só na terapia.
Ele acontece, principalmente, na vida.
Então o que fazer na prática?
Primeiro: não transforme o álbum em guerra.
Se a criança está envolvida com aquilo, tente entrar nesse interesse antes de apenas bloquear.
Algumas ideias práticas:
- usar as figurinhas para ensinar números
- organizar por categorias
- estimular trocas com outras crianças
- trabalhar espera antes de abrir novos pacotes
- ensinar flexibilidade quando vier repetida
- criar pequenas metas
E, principalmente, aproveitar a oportunidade social que surge naturalmente nesse contexto.
E quando a criança faz birra para comprar mais?
Aqui entra um ponto importante:
frustração precisa ser ensinada.
O cérebro infantil não nasce sabendo esperar, perder ou ouvir “não”.
Isso é desenvolvimento.
Mas ensinar não significa gritar, humilhar ou invalidar emoção.
Significa acolher o sentimento sem ceder a tudo.
“Eu entendo que você queria muito.”
“É difícil quando não vem a que você queria.”
“Hoje não vamos comprar mais.”
“Vamos pensar juntos no que podemos fazer.”
O cérebro aprende muito nessas experiências.
O que eu quero que você leve desse texto
Talvez o álbum de figurinhas não seja só um álbum.
Talvez ele esteja trazendo oportunidades importantes de desenvolvimento, socialização, flexibilidade e aprendizado emocional.
Porque, muitas vezes, aquilo que parece apenas brincadeira é justamente onde o cérebro mais aprende.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista
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