“Guarda o brinquedo.”
“Vamos tomar banho.”
“Coloca o tênis.”
“Eu já falei cinco vezes!”
Se você tem criança em casa, provavelmente já viveu uma cena parecida. E, depois de repetir várias vezes, é fácil chegar à conclusão: “Ele está me ignorando”.
Mas antes de interpretar esse comportamento como desafio ou desobediência, existe uma pergunta importante: será que a criança conseguiu ouvir, compreender e executar aquilo que você pediu?
Parece simples, mas não é.
Entre ouvir e fazer, muita coisa acontece no cérebro
Imagine uma criança completamente envolvida em uma brincadeira e alguém dizendo do outro lado da casa: “Vai tomar banho”.
Para responder, ela precisa direcionar a atenção para aquela fala, compreender a instrução, interromper o que estava fazendo, manter o pedido na memória e iniciar uma nova ação.
As funções executivas participam muito desse processo. Elas ajudam o cérebro a organizar comportamentos, controlar impulsos, manter informações na memória de trabalho e mudar o foco de uma atividade para outra.
Em crianças com TDAH, autismo ou outras particularidades do neurodesenvolvimento, algumas dessas transições podem ser ainda mais desafiadoras.
Isso não significa que toda vez que uma criança não atende exista uma dificuldade neurológica. Crianças também testam limites, podem não querer interromper uma atividade prazerosa e precisam aprender a seguir orientações.
O importante é não transformar automaticamente todo “não fez” em “não obedeceu”.
Antes de repetir dez vezes, mude a forma de pedir
Às vezes, pequenas mudanças fazem uma diferença enorme.
Em vez de dar uma ordem de outro cômodo, aproxime-se da criança e tenha certeza de que conseguiu a atenção dela antes de falar. Use instruções curtas e objetivas e dê tempo para que ela processe o que ouviu.
Também observe a quantidade de informações de uma só vez.
“Arruma o quarto, guarda os brinquedos, pega a mochila, coloca o tênis e vamos embora” exige que a criança mantenha várias etapas na memória enquanto executa cada uma delas.
Talvez seja mais eficiente começar por:
“Primeiro, vamos guardar os brinquedos.”
Depois, avançamos para a próxima etapa.
Para algumas crianças, antecipar transições também ajuda: “Daqui a cinco minutos vamos guardar o brinquedo e tomar banho”. Assim, a mudança não chega de repente.
Observe o padrão, não apenas um episódio
Se seu filho parece não responder principalmente quando está brincando ou diante de uma tela, talvez a dificuldade esteja na transição daquela atividade.
Mas se isso acontece em diferentes ambientes, com diferentes pessoas, ou se você percebe dificuldade frequente para compreender orientações, sustentar a atenção ou realizar tarefas esperadas para a idade, vale conversar com a escola e buscar uma avaliação profissional.
E, claro, se existe dúvida sobre a própria audição, isso também precisa ser investigado.
Antes de concluir “meu filho não me escuta”, experimente perguntar:
“O que pode estar dificultando para ele transformar aquilo que ouviu em uma ação?”
Às vezes, não precisamos falar mais alto nem repetir mais vezes.
Precisamos tornar a nossa comunicação mais fácil de compreender e de executar.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista