“Mayra, meu filho não para um minuto! Parece que tem energia de sobra.”
Essa é uma queixa que escuto de muitas famílias. A criança corre pela casa, pula no sofá, sobe nos móveis e parece estar sempre procurando alguma coisa para fazer. Mas será que precisamos olhar para todo esse movimento como um problema?
Às vésperas do Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro, quero lembrar que a atividade física não beneficia apenas o coração. Ela também é importante para o desenvolvimento do cérebro.
O que acontece no cérebro quando a criança se movimenta?
Quando uma criança corre, pula, dança ou anda de bicicleta, diferentes regiões do cérebro trabalham juntas para coordenar os movimentos, manter o equilíbrio, perceber o espaço e ajustar as respostas do corpo.
A atividade física regular também favorece processos relacionados à atenção, à memória, ao humor e à regulação emocional. Além disso, pode contribuir para a qualidade do sono, que é fundamental para consolidar aquilo que aprendemos.
Por isso, brincar e se movimentar não são atividades secundárias na infância. São experiências importantes para o desenvolvimento.
Como transformar o movimento em aprendizagem?
Na ABA Naturalista, aproveitamos as situações do cotidiano para desenvolver habilidades de maneira funcional. E as brincadeiras de movimento oferecem inúmeras oportunidades.
Uma brincadeira de estátua, por exemplo, envolve prestar atenção à música, perceber quando ela para e controlar o próprio movimento. Um circuito com almofadas pode trabalhar equilíbrio, planejamento motor e a capacidade de seguir pequenas instruções.
Já brincar de bola permite exercitar a coordenação, a comunicação e a espera pela própria vez.
Não precisamos transformar essas experiências em exercícios terapêuticos. O mais importante é que a criança tenha prazer em participar, respeitando sua idade, seus interesses e suas necessidades.
E quando a criança parece precisar se movimentar o tempo todo?
Para algumas crianças, inclusive aquelas com TDAH ou autismo, o movimento pode ajudar na organização sensorial e na regulação emocional. Mas cada criança apresenta necessidades diferentes, e nem toda agitação indica uma condição do neurodesenvolvimento.
Em vez de exigir que seu filho fique sentado durante longos períodos, observe como ele responde a pequenas pausas para se movimentar. Uma caminhada, uma brincadeira ao ar livre ou alguns minutos de dança podem ajudar a reorganizar a rotina.
Se a agitação for persistente e estiver prejudicando a aprendizagem, o sono, a segurança ou a convivência, vale buscar uma avaliação profissional.
O movimento não precisa ser apenas uma maneira de gastar energia. Ele também pode ser uma forma de descobrir o mundo, desenvolver habilidades e aprender a lidar com o próprio corpo.
Com carinho,
Mayra Gaiato Psicóloga e neurocientista