Seu filho sente dor demais ou parece não sentir dor? Entenda a hipersensibilidade e a hipossensibilidade no autismo

Algumas crianças autistas reagem intensamente a determinados estímulos, enquanto outras parecem não perceber machucados ou desconfortos. Entenda como funciona o processamento sensorial e quais sinais merecem atenção.

“Mayra, meu filho não suporta que eu corte as unhas dele, mas outro dia caiu, machucou o joelho e quase não chorou. Como isso é possível?”

Essa é uma dúvida que aparece com frequência entre famílias de crianças autistas.

Às vezes, a criança se incomoda muito com a etiqueta de uma roupa, com a água do banho ou com alguém encostando em seu cabelo. Em outras situações, pode não demonstrar a reação que os adultos esperam diante de uma queda, um ferimento ou algum desconforto físico.

Para entender essas diferenças, precisamos conversar sobre como o cérebro recebe, organiza e responde às informações sensoriais.

Hipersensibilidade e hipossensibilidade: qual é a diferença?

Nosso sistema nervoso recebe informações o tempo inteiro. Sons, luzes, cheiros, texturas, temperatura, movimentos e sensações corporais ajudam o cérebro a compreender o que acontece dentro e fora do corpo.

Em algumas pessoas autistas, essas informações podem ser processadas de maneira diferente.

Chamamos de hiper-reatividade sensorial quando existe uma resposta aumentada a determinados estímulos. Uma criança pode, por exemplo, sentir grande desconforto com barulhos, determinadas texturas ou toques.

Já a hiporreatividade sensorial acontece quando a resposta a certos estímulos é reduzida. A criança pode demorar a perceber algumas sensações ou demonstrar pouca reação a elas.

Quando falamos especificamente da dor, também existem os termos hiperalgesia, para uma sensibilidade dolorosa aumentada, e hipoalgesia, para uma sensibilidade reduzida à dor.

Mas é importante não confundir essas situações. Sentir desconforto com um toque não significa necessariamente sentir mais dor, assim como não chorar diante de um machucado não prova que a criança sentiu menos.

E existe outra característica importante: a mesma criança pode apresentar respostas aumentadas a alguns estímulos e reduzidas a outros.

Por isso, não podemos imaginar que toda criança autista seja hipersensível ou hipossensível a tudo.

Sentir dor e demonstrar dor não são a mesma coisa

Esse é um dos pontos que considero mais importantes para as famílias.

Uma criança pode sentir dor, mas não conseguir explicar onde dói, qual é a intensidade ou o que está acontecendo com seu corpo.

Algumas apresentam dificuldades de comunicação. Outras têm dificuldade para identificar e interpretar determinadas sensações internas, habilidade relacionada à interocepção.

Também existem crianças que demonstram desconforto de maneiras pouco convencionais.

Em vez de dizer “estou com dor”, podem ficar irritadas, apresentar mudanças no sono, recusar alimentos, evitar determinadas posições ou atividades, chorar mais do que o habitual ou passar a apresentar comportamentos diferentes.

Imagine uma criança que começa a bater a cabeça, se agitar ou recusar uma atividade que antes realizava tranquilamente.

Antes de interpretar essa mudança apenas como um comportamento desafiador, precisamos investigar se existe dor, doença ou algum desconforto físico.

Nem todo comportamento difícil é uma questão comportamental. Às vezes, o corpo está tentando comunicar algo que a criança ainda não consegue expressar em palavras.

Como ajudar no dia a dia?

O primeiro passo é conhecer o perfil sensorial do seu filho.

Observe quais situações provocam desconforto, como ele reage a diferentes estímulos e quais mudanças costumam aparecer quando não está se sentindo bem.

Algumas atitudes podem ajudar:

  • Observe mudanças no comportamento. Irritabilidade repentina, alterações no sono, recusa alimentar ou resistência a atividades habituais podem indicar desconforto e merecem investigação.
  • Ensine formas de comunicar a dor. Dependendo das habilidades da criança, utilize palavras simples, gestos, imagens ou recursos de comunicação alternativa para indicar onde dói e pedir ajuda.
  • Antecipe experiências sensoriais difíceis. Antes de cortar o cabelo, cuidar das unhas ou realizar uma consulta, explique o que vai acontecer e, quando possível, permita que a criança conheça os materiais e participe das escolhas.
  • Respeite os sinais de desconforto. Não force o contato com estímulos dolorosos ou muito desagradáveis na tentativa de fazer a criança se acostumar.
  • Não minimize machucados pela ausência de choro. Se houve uma queda, um ferimento ou uma mudança física importante, avalie a situação mesmo que a criança não demonstre dor.

Essas estratégias podem facilitar a comunicação e a participação da criança, mas não substituem a avaliação de profissionais de saúde.

Quando procurar ajuda?

Se você percebe que seu filho apresenta respostas muito intensas a estímulos cotidianos, parece não perceber ferimentos ou tem dificuldade frequente para comunicar desconfortos, vale conversar com os profissionais que acompanham seu desenvolvimento.

A avaliação pode envolver diferentes áreas, conforme a necessidade, incluindo pediatria, neurologia, terapia ocupacional e outros profissionais.

Também é importante lembrar que uma alteração nova na maneira de reagir à dor não deve ser atribuída automaticamente ao autismo. Ela pode estar relacionada a uma condição de saúde que precisa ser investigada.

O objetivo não é fazer com que a criança suporte qualquer estímulo ou reaja exatamente como esperamos.

É compreender como ela percebe o mundo e ajudá-la a reconhecer, comunicar e lidar com as sensações de maneira mais segura.

Porque, quando uma criança não consegue dizer que algo está doendo, nossa responsabilidade não é esperar que ela encontre as palavras. É aprender a observar, oferecer caminhos de comunicação e investigar o que pode estar acontecendo.

Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista

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