Quando uma pessoa autista sente necessidade de sair imediatamente de um ambiente, o que pode estar acontecendo? Seria uma tentativa de escapar de uma situação desconfortável, uma forma de autorregulação ou um comportamento que oferece riscos à sua segurança?
A resposta depende do contexto.
Embora o eloping seja frequentemente associado à infância, adolescentes e adultos autistas também podem vivenciar episódios de afastamento inesperado. Por isso, compreender suas causas, reconhecer sinais de alerta e conhecer estratégias de prevenção é fundamental para promover segurança sem comprometer a autonomia.
O que é eloping no autismo?
Eloping é o termo utilizado para descrever situações em que uma pessoa se afasta inesperadamente de um ambiente seguro ou de quem a acompanha, podendo ficar exposta a perigos.
No autismo, esse comportamento pode estar relacionado à sobrecarga sensorial, ansiedade, dificuldades de comunicação ou busca por lugares específicos.
Imagine um adulto autista em um evento com muitas pessoas, música alta e iluminação intensa. Em determinado momento, ele sai rapidamente e acaba em uma região desconhecida, sem conseguir encontrar o caminho de volta.
Nesse exemplo, a preocupação não está apenas na saída, mas nos riscos envolvidos.
É importante destacar que nem toda saída repentina é eloping. Afastar-se para descansar ou buscar tranquilidade também pode ser uma escolha consciente e uma estratégia saudável de autorregulação.
Eloping também acontece na fase adulta?
Sim! Embora grande parte das pesquisas esteja concentrada na infância, o eloping também é relatado por adolescentes e adultos autistas.
Um estudo exploratório apresentado à Society for Social Work and Research, em 2024, reuniu relatos de 205 pessoas autistas, entre 13 e 78 anos, que haviam vivenciado episódios de eloping.
A pesquisa reforça a importância de ouvir as próprias pessoas autistas para compreender suas experiências. Entretanto, não permite determinar a frequência do comportamento na população adulta.
Isso mostra por que o cuidado com o autismo precisa acompanhar todas as fases da vida, considerando que as necessidades de apoio podem mudar ao longo do desenvolvimento.
Por que o eloping pode acontecer?
Não existe uma única explicação. O comportamento pode estar relacionado a diferentes fatores, que variam conforme a pessoa e o ambiente.
A sobrecarga sensorial é uma das possibilidades. Sons intensos, iluminação excessiva, multidões e outros estímulos podem provocar desconforto e aumentar a necessidade de afastamento.
Situações de ansiedade, estresse, conflitos ou mudanças inesperadas também podem influenciar o comportamento.
Outro fator importante é a comunicação. Nem sempre a pessoa consegue expressar que precisa de uma pausa, está desconfortável ou deseja interromper uma atividade.
Em outros casos, o afastamento pode acontecer pela busca de um local ou atividade específica.
Por isso, compreender o que aconteceu antes, durante e depois do episódio é fundamental. O comportamento precisa ser analisado dentro de seu contexto, sem interpretações precipitadas.
Quando o eloping se torna um sinal de alerta?
Querer sair de um ambiente não é, por si só, um problema. A preocupação surge quando o afastamento compromete a segurança.
Isso pode acontecer quando a pessoa fica desorientada, não consegue retornar, se expõe ao trânsito ou entra em locais desconhecidos e potencialmente perigosos.
O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) destaca riscos como acidentes de trânsito e afogamento em episódios de wandering e eloping relacionados ao autismo, embora grande parte das pesquisas disponíveis envolva crianças.
Na fase adulta, também é importante considerar os deslocamentos independentes, a participação em atividades sociais e as condições de segurança em diferentes ambientes.
A frequência dos episódios merece atenção, mas não é necessário esperar que eles se repitam. Uma única situação de risco significativo já pode justificar a busca por orientação profissional.
Como prevenir o eloping na fase adulta?
A prevenção deve considerar as necessidades individuais, respeitando a autonomia e as escolhas da pessoa autista.
O primeiro passo é identificar possíveis fatores desencadeantes. Observar em quais ambientes os episódios acontecem, quais situações os antecedem e como a pessoa reage pode ajudar a reconhecer padrões.
Também é importante desenvolver formas acessíveis de comunicação. Combinar uma mensagem, um gesto ou outro recurso para indicar a necessidade de sair pode facilitar o pedido de ajuda antes que o desconforto aumente.
Conhecer previamente lugares seguros, identificar rotas e manter contatos de confiança acessíveis são outras medidas que podem contribuir para a segurança.
Além disso, adaptar ambientes, reduzir estímulos excessivos e permitir pausas pode ajudar a prevenir situações de sobrecarga.
As diretrizes do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) recomendam que o cuidado de adultos autistas considere necessidades sensoriais, comunicação, condições ambientais e preferências individuais.
Quando existe histórico de episódios com exposição a perigos, um plano individual de segurança, elaborado com orientação profissional e participação da própria pessoa, pode ser necessário.
O objetivo não é impedir a saída, mas oferecer alternativas para que ela aconteça de maneira segura.
Como conviver com um adulto autista que apresenta eloping?
Conviver com alguém que apresenta episódios de eloping pode gerar preocupação, especialmente quando existem riscos envolvidos. Entretanto, cuidado não deve ser confundido com controle.
Familiares, parceiros e pessoas próximas podem contribuir respeitando necessidades sensoriais, oferecendo previsibilidade e estabelecendo acordos de segurança.
Em vez de interpretar uma saída repentina como desobediência ou falta de consideração, é importante investigar o que pode ter motivado o comportamento.
Durante momentos de intensa sobrecarga, confrontos e cobranças podem aumentar o desconforto. Uma comunicação clara, objetiva e respeitosa tende a ser mais adequada.
Também é fundamental ouvir a própria pessoa autista e incluí-la nas decisões sobre seu cuidado.
A segurança deve caminhar junto com o respeito à privacidade, às escolhas e à independência.
O que fazer se uma pessoa autista desaparecer?
Quando uma pessoa desaparece e existem preocupações com sua segurança, é importante agir imediatamente.
No Brasil, não é necessário esperar 24 horas para registrar uma ocorrência de desaparecimento, conforme orientações do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Em situações de emergência, acione a polícia pelo 190 e informe onde a pessoa foi vista pela última vez. Compartilhe uma fotografia recente, características físicas, roupas utilizadas e possíveis destinos.
Também é importante comunicar necessidades específicas de orientação, comunicação ou saúde que possam contribuir para as buscas.
Essas informações devem ser compartilhadas prioritariamente com as autoridades, preservando a privacidade da pessoa.
Eloping e saúde mental: existe alguma relação?
O eloping pode acontecer em situações de sofrimento emocional, mas não deve ser automaticamente associado a uma condição de saúde mental ou a comportamento suicida.
O afastamento inesperado pode ter diferentes explicações, incluindo desconforto sensorial, ansiedade, dificuldades de comunicação e busca por determinados ambientes.
Entretanto, mudanças importantes de comportamento, manifestações de desesperança, falas sobre morte ou sinais de autolesão exigem atenção específica.
As diretrizes do NICE orientam que a avaliação de adultos autistas também considere possíveis condições de saúde mental associadas, evitando atribuir todas as dificuldades exclusivamente ao autismo.
Quando houver risco imediato de autoagressão ou suicídio, procure atendimento de emergência, como o SAMU, pelo número 192.
Quando procurar ajuda profissional?
A orientação profissional é importante quando os episódios são recorrentes, provocam sofrimento, interferem na rotina ou colocam a segurança em risco.
Uma avaliação individualizada pode investigar aspectos relacionados à comunicação, ao processamento sensorial, à autorregulação e às condições emocionais.
Dependendo das necessidades identificadas, o acompanhamento pode envolver diferentes especialidades.
A Terapia Ocupacional pode contribuir com estratégias sensoriais e funcionais, a Psicologia com a compreensão de fatores emocionais e comportamentais e a Fonoaudiologia com necessidades relacionadas à comunicação.
O cuidado multidisciplinar permite compreender o comportamento de forma mais ampla e desenvolver estratégias que favoreçam segurança, autonomia e qualidade de vida.
Compreender o eloping também é uma forma de cuidar
Nem sempre é sobre querer ir embora. Às vezes, é sobre não conseguir permanecer.
Por trás de um afastamento inesperado, podem existir necessidades que precisam ser reconhecidas e acolhidas.
Falar sobre eloping na fase adulta é ampliar a conscientização sobre o autismo e reforçar que o cuidado deve acompanhar todas as etapas da vida.
O Instituto Singular oferece cuidado multidisciplinar para crianças, adolescentes e adultos, respeitando as particularidades de cada pessoa.
Se você ou alguém próximo enfrenta situações que comprometem a segurança ou a qualidade de vida, converse com nossa equipe e conheça as possibilidades de acompanhamento.