Seu filho já havia deixado as fraldas, conseguia usar o banheiro e, de repente, começou a fazer xixi na roupa novamente. É natural que os pais fiquem preocupados e tentem entender o que aconteceu.
Mas a primeira coisa que precisamos lembrar é que o desenvolvimento infantil não acontece em linha reta. Uma criança pode conquistar determinada habilidade e, em alguns momentos, apresentar dificuldades para mantê-la.
O retorno dos escapes de urina pode ter diferentes causas. Mudanças na rotina, situações de estresse, dificuldades emocionais e até a chegada de um irmão podem influenciar o comportamento. Mas também precisamos considerar questões físicas, como constipação intestinal, infecção urinária ou alterações no funcionamento da bexiga.
Por isso, antes de interpretar o episódio como birra, preguiça ou falta de atenção, é importante investigar.
Eu sei que, na correria do dia a dia, pode ser frustrante precisar trocar roupas, limpar o chão e reorganizar uma rotina que parecia resolvida. Mas broncas, castigos e comentários que envergonham a criança não ajudam. Pelo contrário, podem aumentar a ansiedade e tornar a situação ainda mais difícil.
O melhor caminho é acolher e observar. Os escapes acontecem em determinados horários? A criança evita usar o banheiro? Está prendendo o xixi enquanto brinca? Houve alguma mudança importante na escola ou em casa?
Essas informações ajudam a compreender o que pode estar acontecendo. Também é importante procurar o pediatra, especialmente quando a criança já tinha controle urinário e voltou a apresentar escapes frequentes. Dor ao urinar, febre, sede excessiva ou aumento importante da frequência urinária exigem avaliação médica.
Enquanto isso, podemos retomar alguns cuidados simples: oferecer oportunidades regulares para ir ao banheiro, facilitar o acesso ao vaso sanitário e valorizar os pequenos avanços, sem transformar cada escape em um problema.
No caso de crianças autistas, vale observar também questões sensoriais, dificuldades para perceber os sinais do próprio corpo e mudanças na rotina.
O desfralde é uma conquista importante, mas não deve se transformar em uma cobrança permanente.
Quando uma criança volta a ter dificuldade com algo que já fazia, a pergunta mais importante não é “por que ela está fazendo isso de novo?”, mas “o que ela está precisando de nós agora?”.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista