Se eu ganhasse um real para cada vez que escuto essa frase no consultório, talvez eu já estivesse aposentada.
“Mayra, meu filho só quer tela. Celular. Tablet. TV. Vídeos e jogos!”!
E antes que você espere que eu comece esse texto dizendo simplesmente “tira a tela”, deixa eu te explicar uma coisa importante:
O cérebro ama recompensa rápida.
Toda vez que uma criança recebe um estímulo altamente previsível, colorido, rápido e recompensador, o cérebro libera dopamina.
A dopamina participa dos circuitos de prazer, motivação e recompensa.
Traduzindo?
O cérebro aprende:
“Isso me faz sentir bem. Quero de novo.”
E as telas são extremamente eficientes nisso.
Mudança rápida de cena: som, imagem, recompensa imediata, pouco esforço e muito estímulo.
Sim, o excesso de tela pode trazer prejuízos reais
Esse é um ponto importante.
E eu preciso ser honesta com você: exposição excessiva e desregulada às telas pode trazer impactos importantes.
Do ponto de vista do neurodesenvolvimento, podemos observar prejuízos em:
- atenção sustentada
- tolerância à frustração
- linguagem
- qualidade do sono
- repertório social
- capacidade de brincar de forma espontânea
- autorregulação emocional
Além disso, pouco se fala sobre os impactos físicos.
-Fadiga ocular.
-Ressecamento dos olhos.
-Piscar reduzido.
-Desconforto visual.
-Sobrecarga sensorial.
Sem contar o sedentarismo associado em muitos casos.
Ou seja: não estamos falando de um detalhe.
E no autismo isso pode ficar ainda mais intenso
Muitas crianças autistas buscam previsibilidade.
Gostam de repetição.
Sentem conforto no controle.
As telas oferecem exatamente isso.
Tirar de uma vez? Quase sempre dá errado
Esse é um erro clássico.
A criança está habituada a uma fonte intensa de recompensa.
Você remove abruptamente sem preparação.
Sem repertório alternativo e sem estratégia.
O resultado costuma ser explosão.
Porque não basta tirar.É preciso construir substituição.
Então o que fazer na prática?
À medida que for possível, convide a criança para experiências reais.
Não perfeitas, mas, possíveis.
Se gosta de estímulo visual:
- bolhas
- água
- massinha
- areia
- encaixes
- atividades manuais
Se gosta de repetição:
- trilhas
- sequências
- jogos previsíveis
- receitas simples
Mas isso não é um tribunal contra mães e pais exaustos
Aqui eu preciso fazer uma pausa importante.
Porque a vida real não acontece dentro de um cenário ideal.
Ela acontece na correria.
Na mãe que precisa trabalhar.
Na mãe solo que não tem com quem deixar o filho.
Na família que precisa cuidar de outros filhos ao mesmo tempo.
Na casa onde não existe rede de apoio.
No pai tentando equilibrar tudo.
Na exaustão de quem está tentando sobreviver emocionalmente e financeiramente.
E é justamente por isso que tantas famílias recorrem às telas.
Não porque não se importam.
Mas porque, muitas vezes, precisam cozinhar.
Precisam tomar banho.
Precisam responder uma demanda de trabalho.
Precisam cuidar de outro filho.
Precisam organizar a casa ou, simplesmente, precisam de alguns minutos para respirar.
E eu entendo isso profundamente.
Por isso, esse texto não é um julgamento.
Não é para colocar mais culpa no colo de quem já carrega peso demais.
É para ampliar a consciência e ajudar você a encontrar caminhos possíveis dentro da sua realidade.
Porque desenvolvimento não se constrói com culpa.
Se constrói com informação, estratégia e pequenos ajustes que cabem na vida real.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista
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