Outro dia uma mãe me disse:
“Mayra, meu filho simplesmente não pisa na areia. Não entra na piscina. Não gosta da grama. Parece birra.”
E eu respondi algo que talvez faça sentido para você também:
Talvez não seja birra.
Talvez seja sensorial.
Quando falamos sobre autismo, uma das coisas que mais impactam o cotidiano das famílias — e que muitas vezes passam despercebidas — é a forma como o cérebro interpreta os estímulos do ambiente.
Porque aquilo que para você parece neutro… para a criança pode ser intenso demais.
Ou imprevisível demais.
Ou até desconfortável.
O cérebro não sente o mundo da mesma forma
A areia que você pisa e nem percebe.
A etiqueta da roupa.
O barulho do secador.
A água caindo no rosto.
A textura de certos alimentos.
Tudo isso pode ser interpretado pelo cérebro como algo extremamente invasivo.
E isso acontece porque muitas crianças autistas apresentam diferenças no processamento sensorial.
Ou seja: o cérebro recebe, organiza e responde aos estímulos de uma forma diferente.
Não é drama.
Não é frescura.
Não é falta de limite.
É neurodesenvolvimento.
O que NÃO fazer
Esse ponto é muito importante.
Porque, na tentativa de ajudar, muitas famílias acabam piorando a experiência.
Evite:
- forçar contato físico
- colocar a criança “de qualquer jeito” na água
- expor de forma abrupta
- interpretar como desobediência
- usar punição
- comparar com outras crianças
Quando o cérebro associa aquele estímulo a medo, desconforto ou invasão, a tendência é aumentar a rejeição.
O que fazer na prática
Na ABA naturalista, nós trabalhamos com aprendizagem dentro da experiência real, respeitando o tempo e a construção de segurança.
Isso significa exposição gradual.
Na prática?
Se a criança evita areia, talvez o primeiro passo nem seja pisar nela.
Pode ser:
olhar
brincar com pazinha
encostar com a mão
colocar um brinquedo perto
sentar próximo
ver outra criança explorando
O cérebro precisa primeiro aprender que aquele estímulo é seguro.
Depois ele amplia repertório.
Pequenas experiências mudam grandes respostas
A lógica não é vencer pelo confronto.
É construir tolerância com previsibilidade.
Se a água incomoda:
comece com brincadeiras fora do banho
esponjas
copinhos
bonecos
controle da própria criança sobre a experiência
Se a grama incomoda:
comece com sapato
depois sentado perto
depois toque breve
sem pressão
Sempre observando sinais reais de desconforto.
Nem tudo precisa ser resolvido naquele dia
Esse talvez seja o maior alívio para muitas famílias.
Você não precisa “corrigir” tudo imediatamente.
Desenvolvimento não acontece no susto.
Acontece na repetição com segurança.
O que eu vejo no consultório
Muitas crianças que inicialmente rejeitam completamente determinados estímulos conseguem ampliar muito seu repertório quando o processo é respeitoso.
Mas isso exige troca de estratégia.
Menos imposição.
Mais leitura do comportamento.
Mais observação.
Mais construção de confiança.
O que quero que você leve desse texto
Se seu filho evita areia, grama, banho, texturas ou certos sons, antes de interpretar como resistência, faça outra pergunta:
O que o cérebro dele está tentando me comunicar?
Essa pergunta muda tudo.
Porque quando a gente troca julgamento por compreensão, o desenvolvimento encontra espaço.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e neurocientista
Se você busca orientações práticas, baseadas em ciência e aplicáveis no dia a dia das famílias, continue acompanhando meus conteúdos.