“Deixa que eu faço, é mais rápido.”
Talvez você já tenha dito essa frase hoje.
A criança demora para se vestir e nós vestimos. Não consegue abrir uma embalagem e abrimos. Arrumamos a mochila, pegamos a água e, quando alguém faz uma pergunta diretamente para ela, às vezes respondemos antes mesmo de dar tempo para que tente.
Eu entendo. Geralmente fazemos isso porque estamos com pressa, queremos ajudar ou evitar uma frustração. Mas existe uma pergunta importante: ela realmente precisa que eu faça ou já poderia participar dessa tarefa?
No dia 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, falar de inclusão também é falar sobre autonomia.
A autonomia não começa aos 18 anos.
Ela é construída nas pequenas experiências da infância.
Autonomia também se aprende
Na ABA Naturalista, usamos situações que já acontecem na rotina para desenvolver habilidades importantes para a vida.
Se a criança está com sede, pode existir ali uma oportunidade de pedir água, pegar o copo ou tentar servir-se. Ao se vestir, pode escolher entre duas camisetas ou participar de uma etapa. Na hora de ir para a escola, pode começar colocando um item na mochila.
Não precisamos esperar que ela consiga realizar uma tarefa inteira.
Podemos oferecer ajuda e, conforme a criança aprende, diminuir gradualmente esse suporte. Se ainda não consegue vestir a camiseta, por exemplo, posso ajudá-la a colocar a cabeça e deixar que tente passar os braços.
O objetivo não é exigir independência antes da hora. É perceber o que ela já consegue fazer e ajudá-la apenas no que ainda precisa.
Proteger não é fazer tudo pela criança
Esse cuidado é especialmente importante quando falamos de crianças com deficiência ou autistas.
Depois de um diagnóstico, é compreensível que a família queira antecipar dificuldades e evitar sofrimento.
Mas a proteção em excesso também pode diminuir oportunidades de aprendizagem.
E autonomia não significa fazer tudo sozinho.
Também é saber escolher, comunicar uma necessidade, dizer que algo incomoda e pedir ajuda quando ela é necessária.
Uma pessoa pode precisar de suporte em determinadas áreas e, ainda assim, participar cada vez mais das decisões e atividades da própria vida.
Por isso, experimente uma mudança simples: antes de fazer automaticamente, espere um pouco.
Deixe seu filho tentar abrir a embalagem. Dê tempo para que responda quando alguém falar com ele. Convide-o a guardar uma coisa na mochila, levar o prato até a pia ou escolher a própria roupa.
Vai demorar mais? Provavelmente.
Pode não sair perfeito? Também.
Mas é justamente tentando que muitas habilidades começam a aparecer.
Não precisamos transformar a casa em uma clínica nem os pais em terapeutas. Estamos falando de permitir que a criança participe da própria vida.
Às vezes, ajudar uma criança a crescer não é fazer mais por ela. É perceber quando podemos fazer um pouco menos para que ela consiga fazer um pouco mais.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista