“Mayra, meu filho é tão inteligente, conversa sobre tudo, tem uma memória incrível, mas, quando precisa ler, parece que trava. Será que é preguiça?”
Essa é uma dúvida que aparece em muitas famílias.
Algumas crianças compreendem muito bem uma história quando alguém lê para elas, mas encontram grandes dificuldades quando precisam reconhecer as palavras sozinhas.
E, diante de tantas tentativas frustradas, podem começar a evitar livros, tarefas e até situações em que precisam ler em voz alta.
Com a chegada de outubro, mês de conscientização sobre a dislexia, quero chamar a atenção para algo importante: uma criança pode ter boas habilidades intelectuais e, ainda assim, apresentar dificuldades específicas para aprender a ler.
O que acontece no cérebro de uma criança com dislexia?
A leitura não é uma habilidade com a qual nascemos.
O cérebro precisa aprender a reconhecer letras, relacioná-las aos sons da fala e, com a prática, identificar palavras de maneira cada vez mais rápida e automática.
Na dislexia, que é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, existem diferenças no funcionamento das redes cerebrais envolvidas nesse processo, especialmente naquelas relacionadas ao processamento dos sons da linguagem e ao reconhecimento das palavras escritas.
Por isso, uma criança pode saber exatamente o que quer dizer, compreender explicações e demonstrar curiosidade, mas precisar de muito mais esforço para ler uma frase.
Isso não significa que ela seja menos inteligente ou que não esteja tentando o suficiente.
Quais sinais os pais devem observar?
Durante a alfabetização, algumas trocas de letras e dificuldades iniciais são esperadas. O que merece atenção é a persistência desses desafios, principalmente quando a criança recebe ensino adequado e continua apresentando dificuldades importantes.
Entre os sinais estão a dificuldade para relacionar letras e sons, reconhecer palavras familiares, ler com fluência e escrever corretamente. Algumas crianças também apresentam dificuldades para identificar rimas ou perceber os sons que formam as palavras.
Outro sinal pode aparecer no comportamento: a criança começa a evitar atividades de leitura, fica frustrada diante das tarefas ou demonstra insegurança na escola.
É importante lembrar que trocar letras, isoladamente, não significa ter dislexia. A avaliação precisa considerar o conjunto das dificuldades, a idade, a escolarização e o desenvolvimento da criança.
Como ajudar no dia a dia?
O primeiro passo é não transformar a leitura em uma experiência de cobrança e constrangimento.
Leia com seu filho, conversem sobre as histórias e permitam que ele acompanhe o texto no próprio ritmo. Jogos com rimas, sons e palavras também podem tornar a aprendizagem mais prazerosa.
Se a criança tem dificuldade para ler, evite compará-la com irmãos ou colegas. Reconheça seus avanços e valorize outras habilidades que ela demonstra.
Também é importante conversar com a escola. Crianças com dislexia podem precisar de ensino estruturado e explícito das relações entre letras e sons, além de adaptações que permitam demonstrar seus conhecimentos sem que toda atividade dependa exclusivamente da fluência de leitura.
Essas estratégias complementam, mas não substituem, a intervenção especializada quando ela é necessária.
Quando procurar uma avaliação?
Se as dificuldades persistem, estão prejudicando a aprendizagem ou provocando sofrimento emocional, não é preciso esperar que a criança acumule anos de frustração para buscar ajuda.
Converse com a escola e procure profissionais especializados em dificuldades de aprendizagem. A avaliação pode envolver diferentes áreas, conforme as necessidades da criança, e deve investigar também outros fatores que possam interferir no aprendizado.
Quanto mais cedo compreendemos a origem de uma dificuldade, mais cedo podemos oferecer o suporte adequado.
A criança com dislexia não precisa que diminuamos nossas expectativas sobre o que ela é capaz de aprender. Ela precisa de caminhos de ensino que respeitem a maneira como seu cérebro aprende.
Com carinho,
Mayra Gaiato Psicóloga e neurocientista