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Sono, movimento e telas: os três pilares ignorados que afetam o desenvolvimento

Um dos maiores estudos globais revelou que menos de 3% dos adolescentes seguem recomendações básicas de sono, movimento e uso de telas. Em pessoas com autismo e TDAH, os impactos são ainda mais sérios. Entenda os dados e como ajustar a rotina com base em ciência.

Tags: Adolescência | Neurodivergência | Saúde mental | Hábitos saudáveis

 

Por que falar de hábitos importa tanto?

Quando falamos de desenvolvimento infantil, especialmente no contexto do autismo e do TDAH, é comum focarmos em terapias, diagnósticos e medicações. Mas existe um conjunto de fatores primordiais — o sono, o movimento diário e o uso de telas — que têm um impacto profundo no funcionamento emocional, cognitivo e comportamental.

Esses fatores não apenas modulam os sintomas, mas influenciam diretamente a forma como o cérebro se desenvolve. E, infelizmente, estão cada vez mais desregulados na infância e, sobretudo, na adolescência.

 

O que são as Diretrizes de Movimento 24h?

As Diretrizes de Movimento 24h propõem que a saúde infantojuvenil deve ser pensada de forma integrada ao longo do dia, incluindo:

  • Sono adequado
    • 10 a 13 horas para crianças pequenas
    • 8 a 10 horas para adolescentes
  • Atividade física diária
    • 180 minutos para pré-escolares
    • Pelo menos 60 minutos/dia para crianças maiores e adolescentes
  • Tempo de tela recreativa limitado
    • Até 1 hora/dia para os pequenos
    • Até 2 horas/dia para maiores de 5 anos

Esses três elementos são interdependentes. Uma criança que dorme mal tende a se movimentar menos e buscar regulação em telas. Uma rotina pobre em movimento compromete o sono. E assim por diante.

 

O que mostra o maior estudo global sobre o tema

Uma meta-análise publicada no Journal of Sport and Health Science analisou dados de 387.437 crianças e adolescentes entre 3 e 18 anos, de 23 países. O objetivo era verificar quantos deles estavam seguindo as diretrizes de movimento, sono e uso de telas.

Os resultados mostraram um padrão preocupante:

  • Apenas 7,12% da amostra total cumpria as três recomendações ao mesmo tempo
  • Entre adolescentes, esse número caiu para 2,68%
  • 28,59% dos adolescentes não cumpriam nenhuma das três

 

 

O que isso significa para crianças e adolescentes neurodivergentes

Crianças com autismo e TDAH, por exemplo, já apresentam, em seu perfil clínico vulnerabilidades nos três pilares:

  • Sono: dificuldade para iniciar e manter o sono, despertares frequentes, ciclos desorganizados
  • Telas: hiperfoco, uso como regulador emocional, dependência de estímulos intensos
  • Movimento: baixa iniciativa, evitam atividades motoras, sedentarismo associado aos interesses restritos

Quando esses hábitos estão desregulados, os sintomas se intensificam, o comportamento se torna mais desorganizado e o avanço terapêutico fica comprometido.

 

Impactos observados na clínica e sustentados pela ciência

A rotina mal ajustada repercute diretamente em:

  • Irritabilidade, crises ou agitação
  • Aumento da impulsividade e da ansiedade
  • Queda de rendimento escolar e atenção
  • Menor tolerância a frustrações
  • Redução na motivação e no prazer
  • Desconexão social e dificuldade de aprendizado de regras 

Para crianças neurodivergentes, que já precisam de mais suporte na autorregulação, uma rotina desorganizada pode ser o fator que desestabiliza todo o ambiente familiar e escolar.

 

A América do Sul em destaque: os piores índices globais

Segundo o estudo, a América do Sul foi a região com os piores índices de adesão:

  • Apenas 2,93% das crianças e adolescentes seguem todas as diretrizes
  • Mais de 30% não seguem nenhuma

Esses dados refletem desigualdades estruturais, mas também a falta de orientação acessível e prática para famílias e escolas.

 

Como pais e profissionais podem agir 

Mudar tudo de uma vez é impossível. Mas mudar um pouco, todos os dias, é viável!

Para o sono:

  • Estabeleça rotina previsível para dormir e acordar
  • Reduza estímulos visuais, sonoros e luminosos no fim do dia
  • Evite telas antes de dormir e inclua rituais calmos (leitura, banho, música suave)

Para o tempo de tela:

  • Combine limites claros com alternativas interessantes
  • Use ferramentas de contagem visual de tempo
  • Não use telas como forma de acalmar ou premiar

Para o movimento:

  • Priorize atividades prazerosas e ajustadas ao perfil sensorial da criança
  • Estimule passeios, brincadeiras corporais, jogos com movimento
  • Envolva a criança ou o jovem em tarefas do cotidiano com movimento (regar plantas, subir escadas, ir ao mercado)


A rotina como cuidado de base

O estudo não traz uma novidade, mas uma confirmação com números daquilo que a prática clínica já revela: nossas crianças e adolescentes estão vivendo rotinas que comprometem seu desenvolvimento.

Sono, movimento e telas não são acessórios. São peças centrais da intervenção clínica e educativa. Ignorá-los é como esperar progresso terapêutico sem cuidar do terreno onde o cérebro se desenvolve.

 

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