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Quando o uso deixa de ser saudável
Passar horas em frente às telas é cada vez mais comum, especialmente entre crianças e adolescentes. Embora, na maioria dos casos, o uso seja parte de uma rotina moderna, estudos apontam que, em certos contextos, pode evoluir para um quadro de dependência comportamental.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Gaming Disorder é um transtorno reconhecido no CID-11 e que traz critérios semelhantes aos da dependência química, como:
- Tolerância (necessidade de jogar mais para obter o mesmo prazer)
- Abstinência emocional
- Perda de controle
- Prejuízo funcional significativo
Uma revisão sistemática publicada no International Journal of Mental Health and Addiction mostrou que o uso excessivo de jogos digitais está fortemente associado a traços de impulsividade, como dificuldade de inibir respostas, tomada de decisão arriscada e menor controle comportamental, características também observadas em quadros de dependência química.
Por que o cérebro responde como em uma dependência química
A semelhança entre jogos digitais e drogas não está em uma substância, mas no que elas provocam no cérebro: uma enxurrada de neurotransmissores como dopamina, noradrenalina e serotonina. Todos eles são mensageiros químicos ligados ao prazer, à atenção e ao humor.
Nos jogos digitais:
- A dopamina aumenta bruscamente a cada “conquista” ou recompensa (gerando um pico de prazer);
- A noradrenalina ativa estados de alerta, deixando a criança em estado de hipervigilância
- A serotonina pode ser liberada após a sensação de vitória ou pertencimento dentro do jogo
Com o tempo, o cérebro começa a esperar por essas recompensas e a reagir a cada estímulo (som, cor, notificação) como se fosse algo vital. Esse processo é conhecido na literatura científica como “cue-reactivity”, e também ocorre no vício por álcool, cigarro e outras drogas.
Jogos como Roblox, por exemplo, trazem elementos que reforçam esse ciclo: recompensas imprevisíveis, imersão em um mundo paralelo, forte senso de progressão e falsa sensação de controle. Com isso, muitos jovens passam a priorizar suas “vidas virtuais”, deixando de lado relações reais e habilidades sociais concretas.
Efeitos no desenvolvimento do cérebro e das relações
O cérebro de crianças e adolescentes ainda está em construção. Uma das últimas áreas a amadurecer é o córtex pré-frontal, responsável por planejar, tomar decisões e controlar impulsos. Segundo o estudo da pesquisadora Dra. Jay Giedd, essa região só completa seu amadurecimento por volta dos 25 anos de idade.
Quando a criança ou o jovem é exposto de forma intensa a jogos e telas:
- O cérebro se acostuma a gratificações imediatas
- A atenção seletiva e a memória de trabalho podem ser prejudicadas
- O sono é afetado (pela luz azul e ativação mental prolongada)
- A autorregulação emocional se torna mais difícil
Além disso, um estudo publicado na JAMA Pediatrics demonstrou que o excesso de tempo de tela em crianças pequenas está associado a atrasos no desenvolvimento da linguagem e nas habilidades sociais.
Para pessoas autistas, o risco é ainda maior
Em crianças e adolescentes autistas, o uso de jogos pode ter um efeito duplo. Por um lado, oferece conforto, previsibilidade e controle, reduzindo a ansiedade e o desconforto sensorial. Mas por outro, pode reforçar padrões de isolamento, rigidez cognitiva e hiperfoco em temas restritos.
Dessa forma, o jogo se torna, muitas vezes, o único meio de autorregulação emocional, dificultando a diversificação de interesses e o aprendizado de habilidades sociais reais.
Como saber se é hora de procurar ajuda
O uso de jogos e telas pode, sim, ter aspectos positivos. Mas é preciso que haja supervisão, equilíbrio e propósito. Pais e cuidadores devem observar:
- A criança ou jovem está perdendo o interesse por atividades antes prazerosas?
- Ela fica irritada ou se desregula quando o jogo é interrompido?
- Tem prejuízos na escola, no sono ou nas relações com a família e amigos?
- Está usando o jogo ou as telas como única forma de se acalmar?
Se a resposta for sim, é importante buscar ajuda especializada. A equipe multidisciplinar do Instituto Singular pode te ajudar de forma presencial ou online. Fale agora com o nosso time clicando aqui.
O papel dos adultos nessa jornada
Supervisionar não é proibir. É entender o que a criança está jogando, com quem está interagindo e por quanto tempo. Aqui vão algumas recomendações práticas:
- Estabeleça horários e regras claras para o uso de telas;
- Ao invés de apenas dizer “não”, converse sobre o conteúdo que está sendo acessado e as consequências do uso prolongado de telas e jogos online;
- Estimule outras formas de diversão e interação (brincadeiras ao ar livre, jogos de tabuleiro, esportes, hobbies compartilhados);
- Seja exemplo: diminua seu próprio uso de celular e computador;
- Evite usar a tela como “babá eletrônica” ou forma de controlar birras.
Lembre-se: crianças e adolescentes aprendem pelo modelo. Se os adultos estão sempre no celular, elas farão o mesmo.
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