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TEA depois da infância
As dificuldades na interação social fazem parte das características centrais do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e tendem a se tornar mais evidentes na adolescência, fase em que as demandas sociais aumentam e as relações entre pares passam a exigir maior flexibilidade, leitura de contexto e reciprocidade.
No contexto clínico brasileiro, é comum que famílias relatem intensificação dessas dificuldades justamente quando o adolescente passa a buscar pertencimento social, amizades e maior autonomia.
Apesar disso, por muitos anos, as intervenções voltadas ao TEA priorizaram linguagem e comportamento adaptativo, deixando lacunas importantes no ensino direto e sistemático de habilidades sociais. É nesse cenário que o Programa PEERS® se consolida como uma das abordagens mais consistentes e cientificamente validadas disponíveis atualmente.
O que é o Programa PEERS® e para quem ele é indicado?
O Programa PEERS® (Program for the Education and Enrichment of Relational Skills) é um treinamento estruturado de habilidades sociais, baseado em evidências científicas, indicado principalmente para adolescentes e adultos jovens no espectro autista que apresentam dificuldades na interação social, apesar de possuírem linguagem verbal funcional.
O programa foi desenvolvido na Universidade da Califórnia em Los Angeles e parte do pressuposto de que muitas regras sociais são implícitas e não aprendidas de forma incidental por pessoas no espectro. Por isso, essas regras precisam ser ensinadas de maneira explícita, estruturada e repetível, utilizando princípios da Análise do Comportamento Aplicada e estratégias sistematizadas de ensino.
Trata-se de um programa de treinamento de habilidades sociais manualizado, amplamente utilizado em clínicas, universidades e serviços especializados em autismo, com aplicação crescente também no Brasil.
Por que habilidades sociais são um desafio no TEA
Adolescentes no espectro autista frequentemente apresentam dificuldades em iniciar e manter conversas, interpretar pistas sociais sutis, compreender normas sociais implícitas e lidar com rejeição ou conflitos interpessoais. Essas dificuldades não indicam falta de interesse social, mas sim desafios no processamento social, na leitura de contexto e na aprendizagem social espontânea.
Quando essas habilidades não são ensinadas de forma direta, o impacto pode ir além das relações sociais, afetando autoestima, participação em grupos, permanência escolar e qualidade de vida ao longo da adolescência.
Como o PEERS® funciona na prática
O PEERS® é aplicado, em geral, em grupos semanais ao longo de 12 a 16 semanas. Cada sessão aborda uma habilidade social específica, como iniciar conversas, identificar interesses comuns, desenvolver e manter amizades, usar humor de forma adequada e lidar com provocações.
As habilidades são ensinadas por meio de modelagem, ensaio comportamental, feedback estruturado e tarefas de casa. Um diferencial central do programa é a participação ativa de pais ou cuidadores, que recebem orientação paralela para apoiar a prática das habilidades no cotidiano e favorecer sua generalização para contextos naturais, como escola, família e atividades sociais.
Evidências científicas sobre a eficácia do PEERS®
O Programa PEERS® realmente funciona para adolescentes no espectro autista?
As pesquisas científicas indicam que sim. O estudo que deu origem ao programa foi conduzido por Laugeson e colaboradores (2012). Nessa pesquisa, adolescentes no espectro que participaram do PEERS® foram comparados a outros que não receberam a intervenção. Os resultados mostraram melhora significativa nas habilidades sociais, aumento das interações com colegas e redução do isolamento social entre os participantes do programa. Esses avanços foram observados tanto por profissionais quanto pelas próprias famílias.
Outro estudo também avaliou o PEERS® aplicado em formato online, por meio de atendimentos à distância. Mostrando que, mesmo sem o encontro presencial, os adolescentes apresentaram melhora nas habilidades sociais quando as sessões mantiveram a estrutura do programa e contaram com a participação ativa dos cuidadores. Esse formato amplia o acesso de famílias que não conseguem participar de intervenções presenciais, sem comprometer a qualidade do ensino das habilidades sociais.
Evolução comprovada
Diante das evidências disponíveis, o Programa PEERS® se consolida como uma intervenção baseada em evidências sólidas para o ensino de habilidades sociais em adolescentes no espectro autista. Para famílias e profissionais no Brasil, o programa representa uma alternativa segura, estruturada e alinhada às melhores práticas internacionais, especialmente quando aplicado com fidelidade ao protocolo e envolvimento familiar. Seu uso fortalece decisões clínicas mais responsáveis e contribui para intervenções socialmente significativas ao longo da adolescência.
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