Crises no Autismo: por que acontecem e como diferenciar de birra

Crises no Autismo: por que acontecem e como diferenciar de birra 

Crises no autismo são frequentemente resultado de sobrecarga sensorial, emocional ou cognitiva. Neste artigo explicamos o que são meltdowns e shutdowns, por que eles acontecem e como diferenciar esses episódios de uma birra comum.

Tags: Autismo | Desenvolvimento Infantil | Comportamento | Regulação Emocional | Meltdown | Shutdown | Neurodiversidade 

 

O que são as crises no autismo 

Algumas famílias relatam momentos em que a criança parece perder o controle emocional ou comportamental. Ela pode chorar intensamente, gritar, ficar muito agitada ou apresentar comportamentos impulsivos. 

Na literatura científica, esses episódios são descritos como crises comportamentais agudas. Elas podem envolver agitação intensa, comportamentos agressivos ou autoagressivos e uma dificuldade temporária de autorregulação emocional (Guinchat et al., 2015Vasa et al., 2020). 

É importante entender que essas crises não acontecem por desobediência ou por falta de limites. Na maioria das vezes, elas surgem quando o cérebro da pessoa autista está enfrentando um nível de sobrecarga muito alto e não consegue mais processar as informações do ambiente de forma equilibrada. 

Em outras palavras, a crise costuma ser uma resposta do sistema nervoso ao excesso de estímulos ou ao estresse acumulado. 

 

Por que as crises acontecem 

Não existe uma única causa para as crises no autismo. A maioria das pesquisas mostra que esses episódios surgem a partir da combinação de vários fatores. 

Um dos mais comuns é a sobrecarga sensorial. Muitas pessoas no espectro autista têm maior sensibilidade a estímulos como barulho, luzes fortes, cheiros intensos ou ambientes muito movimentados. Quando esses estímulos se acumulam, o cérebro pode ter dificuldade para processar tudo ao mesmo tempo. 

Outro fator importante é a dificuldade de comunicação. Quando a criança não consegue expressar o que sente ou o que precisa, a frustração pode aumentar. Estudos com famílias indicam que dificuldades de comunicação são um dos gatilhos mais frequentes para crises. 

As mudanças inesperadas na rotina também podem gerar grande estresse. Muitas pessoas autistas se sentem mais seguras quando conseguem prever o que vai acontecer. Quando um plano muda de repente, isso pode gerar ansiedade e aumentar o risco de sobrecarga emocional (Phung et al., 2021). 

Além disso, fatores como cansaço, estresse acumulado, dificuldades escolares ou até dor física também podem contribuir para esses episódios. Em alguns estudos com adolescentes autistas hospitalizados por crises comportamentais severas, quase metade apresentava outra condição psiquiátrica associada, como ansiedade ou depressão. 

 

O que acontece no cérebro durante a crise 

Durante uma crise, o cérebro entra em um estado de grande ativação emocional e fisiológica. 

Pesquisas recentes sugerem que pessoas autistas podem apresentar maior reatividade ao estresse e uma tendência à hipervigilância. Isso significa que o sistema nervoso pode reagir de forma muito intensa a estímulos que parecem pequenos para outras pessoas. 

Alguns estudos também apontam diferenças no funcionamento de áreas do cérebro responsáveis por integrar sensações corporais e emoções, como a ínsula. Essas diferenças podem influenciar a forma como a pessoa percebe o ambiente e regula suas emoções. 

Quando a quantidade de estímulos ultrapassa a capacidade de processamento do cérebro, ocorre uma espécie de sobrecarga. Nesse momento, o sistema nervoso pode reagir de forma intensa, gerando a crise. 

 

O que são meltdown e shutdown 

Dentro das crises relacionadas ao autismo, dois termos são frequentemente utilizados: meltdown e shutdown. 

meltdown é uma resposta explosiva à sobrecarga. Nesse momento, a pessoa pode apresentar choro intenso, gritos, movimentos agitados ou comportamentos impulsivos. Muitos autistas descrevem o meltdown como uma sensação de estar completamente sobrecarregado, com dificuldade para pensar ou se comunicar (Lewis & Stevens, 2023). 

Já o shutdown é uma resposta mais silenciosa à sobrecarga. Em vez de reagir com agitação, a pessoa pode se fechar, falar menos ou parar de falar, evitar contato visual ou se isolar. É como se o cérebro reduzisse a interação com o ambiente para tentar se reorganizar. 

Ambas as respostas são formas do sistema nervoso lidar com níveis muito altos de estresse. 

 

Diferença entre birra e crise no autismo 

Uma dúvida muito comum entre famílias é saber se determinado comportamento é uma birra ou uma crise relacionada ao autismo. 

A birra geralmente tem um objetivo claro. A criança pode estar tentando conseguir algo que deseja ou evitar uma tarefa que não quer fazer. 

Já a crise relacionada ao autismo não costuma ter esse objetivo. Ela acontece quando o cérebro está sobrecarregado e a pessoa perde temporariamente a capacidade de regular suas emoções. 

Pesquisas indicam que birras costumam parar quando a criança consegue o que quer ou quando percebe que não terá resultado. Já as crises só terminam quando o sistema nervoso consegue se reorganizar novamente. 

 

Exemplo prático 

Imagine uma criança no espectro autista que vai a um shopping em um dia muito movimentado. 

O ambiente pode ter música alta, muitas pessoas caminhando, luzes fortes, cheiros intensos de comida e mudanças inesperadas no planejamento do passeio. Ao mesmo tempo, a criança pode estar cansada ou com dificuldade para explicar o que está sentindo. 

Cada um desses fatores pode parecer pequeno isoladamente. Porém, quando todos acontecem ao mesmo tempo, eles podem gerar uma grande quantidade de estímulos para o cérebro processar. 

Se essa soma de estímulos ultrapassar o limite de tolerância do sistema nervoso, a crise pode acontecer. Nesse momento, comportamentos como choro intenso ou agitação não são uma tentativa de manipular os adultos, mas sim uma reação à sobrecarga. 

 

Como apoiar a pessoa nesses momentos 

Quando uma crise acontece, o primeiro passo é lembrar que a pessoa está passando por um momento de grande estresse. 

Reduzir os estímulos do ambiente pode ajudar o cérebro a se reorganizar. Um local mais tranquilo, menos barulho e uma comunicação calma costumam contribuir para que o sistema nervoso volte gradualmente ao equilíbrio. 

Também é importante evitar discussões ou punições durante a crise, já que nesse momento a pessoa pode não conseguir processar orientações complexas. 

Depois que tudo se acalma, observar quais fatores podem ter contribuído para aquele episódio ajuda a prevenir novas sobrecargas no futuro. 

 

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