A mãe planejou o passeio.
O pai avisou com antecedência.
Estava tudo certo.
Mas começou a chover.
O passeio precisou ser cancelado.
E, de repente, a criança entrou em uma crise.
Ou talvez tenha acontecido algo mais simples.
O caminho para a escola mudou.
A professora faltou.
A cadeira estava em outro lugar.
O desenho acabou.
O combinado precisou ser alterado.
E a reação parece desproporcional para quem está olhando de fora.
Se você já viveu algo parecido, quero te contar uma coisa importante: muitas vezes o problema não é a mudança.
O problema é o que essa mudança provoca dentro daquele cérebro.
Nem sempre é teimosia
Uma das interpretações mais comuns que escuto das famílias é:
“Ele quer tudo do jeito dele.”
Mas a maioria das crianças não está tentando controlar o mundo.
Ela está tentando controlar a própria sensação de segurança.
E isso muda completamente a forma como entendemos o comportamento.
Quando falamos de rigidez cognitiva, estamos falando da dificuldade que algumas pessoas têm para mudar de plano, considerar alternativas ou se adaptar a situações inesperadas.
E isso é muito comum no autismo, mas também pode aparecer em outras condições do neurodesenvolvimento.
O que a previsibilidade oferece ao cérebro?
Imagine que você vai fazer uma viagem.
Você sabe o horário.
O hotel.
O roteiro.
O que vai acontecer.
Existe uma sensação de conforto nisso.
Agora imagine que tudo muda sem aviso.
O hotel foi cancelado.
O voo atrasou.
O destino mudou.
A maioria dos adultos sentiria ansiedade.
Com algumas crianças acontece algo parecido.
A previsibilidade funciona como um organizador interno.
Ela ajuda o cérebro a antecipar o que vem pela frente.
E quando essa previsão desaparece, a sensação de insegurança pode aumentar bastante.
Muitas vezes a rigidez está protegendo a criança da ansiedade
Esse é um ponto que considero fundamental.
A rigidez cognitiva não surge porque a criança quer dificultar a vida dos pais.
Na maioria das vezes, ela funciona como uma tentativa de reduzir incertezas.
Quanto mais previsível o ambiente parece, mais seguro aquele cérebro se sente.
Por isso, quando algo muda de repente, a reação emocional pode ser intensa.
Não porque a mudança é grave.
Mas porque ela rompe uma estrutura que ajudava aquela criança a se sentir organizada internamente.
O erro mais comum: forçar adaptação o tempo todo
Quando os pais entendem que o filho tem dificuldade com mudanças, muitas vezes surgem dois extremos.
O primeiro é evitar qualquer alteração na rotina.
O segundo é forçar mudanças constantes para que a criança “aprenda de uma vez”.
Nenhum dos dois costuma funcionar bem.
Porque adaptação é uma habilidade que se ensina.
E habilidades se desenvolvem gradualmente.
Como ensinar flexibilidade na prática
Essa é uma pergunta que recebo com frequência.
E a resposta não está em grandes transformações.
Está em pequenas experiências.
Por exemplo:
Trocar a ordem de uma brincadeira.
Experimentar um caminho diferente em um dia tranquilo.
Variar pequenos detalhes de uma atividade conhecida.
Apresentar duas opções em vez de apenas uma.
Criar situações em que o inesperado aconteça de forma leve e segura.
O objetivo não é gerar sofrimento.
O objetivo é ensinar ao cérebro que mudanças podem ser administradas.
A antecipação ajuda muito
Uma estratégia que utilizo com frequência é preparar a criança para o que vai acontecer.
Avisar mudanças.
Mostrar visualmente.
Conversar antes.
Explicar alternativas.
Quanto mais repertório a criança desenvolve para lidar com o inesperado, menor tende a ser o impacto emocional das mudanças.
Flexibilidade não significa gostar da mudança
Isso é importante.
Muitas famílias acreditam que o objetivo é fazer a criança gostar de mudanças.
Mas não é isso.
O objetivo é ajudá-la a lidar com elas.
Porque nem sempre teremos controle sobre o que acontece.
Por isso, raramente trabalho apenas o comportamento.
Procuro entender o que aquele comportamento está tentando proteger.
Porque quando entendemos a função, conseguimos ajudar de forma muito mais respeitosa e eficaz.
O que eu quero que você leve deste texto?
Se seu filho sofre quando algo muda, tente olhar além da reação.
Talvez você não esteja diante de uma criança teimosa.
Talvez esteja diante de uma criança que encontrou na previsibilidade uma forma de se sentir segura.
E segurança é algo que todo cérebro procura.
A boa notícia é que flexibilidade pode ser ensinada.
Não através de pressão.
Não através de punição.
Mas através de experiências graduais, acolhimento e oportunidades para praticar adaptação dentro da vida real.
Porque aprender a lidar com mudanças não acontece de uma vez.
Acontece uma pequena experiência de cada vez.
Com carinho,
Mayra Gaiato- Psicóloga e Neurocientista
Se você busca orientações práticas, baseadas em ciência e aplicáveis à vida real das famílias, continue acompanhando meus conteúdos.