Quando pensamos em férias, costumamos imaginar viagens, passeios e brincadeiras.
Mas existe uma atividade simples, acessível e extremamente poderosa que muitas vezes passa despercebida: ler junto.
E quando eu falo em leitura, não estou falando de transformar as férias em obrigação ou em reforço escolar.
Estou falando de sentar ao lado da criança, abrir um livro e viver uma experiência juntos.
Do ponto de vista da neurociência, poucas atividades conseguem estimular tantas áreas do desenvolvimento ao mesmo tempo.
Ler junto é muito mais do que ensinar a ler
Muitas famílias acreditam que a leitura só é importante quando a criança começa a aprender as letras.
Mas o cérebro começa a aprender muito antes disso.
Quando uma criança escuta uma história, ela trabalha linguagem, atenção, memória, imaginação e compreensão emocional.
Ela aprende a esperar.
A fazer previsões.
A interpretar expressões.
A compreender intenções e sentimentos dos personagens.
Tudo isso fortalece habilidades fundamentais para a vida escolar e social.
O cérebro aprende melhor quando existe vínculo
Existe um aspecto da leitura compartilhada que considero ainda mais importante.
Ela acontece dentro de uma relação.
A criança está perto de alguém que gosta dela.
Existe contato visual.
Existe atenção compartilhada.
Existe troca.
E sabemos hoje que o cérebro aprende muito melhor quando existe segurança emocional.
Por isso, muitas vezes, o momento da leitura se torna também um momento de regulação, conexão e pertencimento.
Crianças neurodivergentes também podem construir uma relação afetiva com os livros
Às vezes, as famílias acreditam que a leitura precisa acontecer de uma forma específica.
Mas isso não é verdade.
Algumas crianças gostam de ouvir histórias completas.
Outras preferem observar imagens.
Algumas gostam de repetir o mesmo livro dezenas de vezes.
Outras se interessam por temas muito específicos.
E tudo isso pode fazer parte da experiência.
O objetivo não é terminar o livro.
O objetivo é construir uma experiência positiva de interação.
Como escolher um livro que realmente conecte com seu filho
De 0 a 2 anos: o cérebro aprende pelos sentidos
Nesta fase, procure livros:
- com imagens grandes e coloridas;
- com poucas palavras por página;
- que tenham texturas, abas ou elementos interativos;
- que trabalhem rotina, família, animais e emoções básicas;
- resistentes, de pano ou cartonados.
O objetivo aqui não é contar a história inteira. É criar momentos de interação, atenção compartilhada e vínculo.
De 3 a 5 anos: imaginação, emoções e linguagem
Nesta fase, prefira livros que:
- contem histórias simples e repetitivas;
- abordem amizade, sentimentos e convivência;
- permitam fazer perguntas durante a leitura;
- tenham personagens com os quais a criança possa se identificar;
- estimulem o faz de conta e a criatividade.
Aqui, o cérebro está desenvolvendo linguagem, memória, habilidades sociais e compreensão emocional.
De 6 a 8 anos: curiosidade e autonomia
Nesta idade, as crianças costumam gostar de:
- histórias de aventura;
- mistérios;
- humor;
- animais;
- ciência e descobertas;
- livros que dialoguem com seus interesses específicos.
Uma dica importante: não escolha apenas o que você gostaria que seu filho lesse. Escolha também aquilo que desperta curiosidade nele.
De 9 a 12 anos: identidade e pensamento crítico
Nesta fase, vale investir em livros que:
- abordem amizades e relações sociais;
- trabalhem emoções mais complexas;
- apresentem desafios e resolução de problemas;
- explorem temas de interesse da criança ou do adolescente;
- estimulem reflexão e pensamento crítico.
A leitura deixa de ser apenas uma atividade de linguagem e passa a ser também uma ferramenta de construção da identidade.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e Neurocientista