Meu filho não desfralda: quando esperar e quando procurar ajuda?

Desfralde não acontece apenas porque a criança chegou a determinada idade. Percepção do próprio corpo, comunicação, rotina, questões sensoriais e prontidão para aprender também fazem parte desse processo.

“Mayra, todo mundo da turma já tirou a fralda. Só o meu filho não.”

Essa é uma preocupação que escuto de muitas famílias. Quando outras crianças da mesma idade começam a usar o banheiro, é quase inevitável comparar. 

Mas o desfralde não acontece porque o calendário determinou que chegou a hora.

Pense em quantas coisas uma criança precisa fazer para conseguir usar o banheiro: perceber que a bexiga está cheia ou que precisa evacuar, entender o que aquela sensação significa, interromper o que está fazendo, comunicar a necessidade, chegar ao banheiro, tirar a roupa e completar toda aquela sequência.

Desfraldar é uma habilidade complexa, não apenas retirar a fralda.

E quando a criança é autista?

Para algumas crianças autistas, esse processo pode exigir mais tempo e estratégias diferentes.

Uma das questões pode estar na interocepção, que é a capacidade de perceber sinais internos do próprio corpo. 

A criança pode demorar mais para reconhecer ou interpretar a sensação de bexiga cheia, por exemplo.

Também podem existir questões sensoriais: o barulho da descarga, o assento do vaso, o cheiro do banheiro, a temperatura ou até a sensação de ficar sem a fralda. 

Para uma criança que gosta muito de previsibilidade, a mudança da rotina também pode gerar resistência.

Antes de pensar que ela “não quer” desfraldar, precisamos tentar entender o que está tornando aquele processo difícil.

Como os pais podem ajudar?

Na ABA Naturalista, procuramos ensinar habilidades aproveitando situações reais e respeitando aquilo que a criança já consegue fazer.

Podemos começar observando sinais de prontidão, criando uma rotina previsível para ir ao banheiro e, quando necessário, usando imagens para mostrar a sequência: baixar a roupa, sentar, fazer xixi ou cocô, limpar-se, vestir-se e lavar as mãos.

E os pequenos avanços importam. 

Avisar que fez xixi, aceitar entrar no banheiro, sentar no vaso ou começar a comunicar uma necessidade podem ser etapas importantes até chegar ao desfralde.

Escapes vão acontecer. 

Punir, envergonhar ou comparar com outras crianças tende a transformar um processo de aprendizagem em uma experiência ainda mais difícil.

Nem toda dificuldade é comportamental

Esse ponto é muito importante. Se a criança demonstra dor, prende o cocô, apresenta constipação frequente, alterações urinárias ou uma dificuldade persistente no desfralde, converse com o pediatra. 

Questões clínicas também podem estar envolvidas e precisam ser investigadas.

Cada criança tem seu ritmo, mas respeitar o ritmo não significa simplesmente esperar indefinidamente. 

Significa observar, ensinar, oferecer suporte e procurar ajuda quando algo parece não estar evoluindo.

No desfralde, a pergunta não deveria ser apenas “quando meu filho vai conseguir?”. 

Talvez seja mais útil perguntar: “o que ele ainda precisa aprender ou superar para conseguir?”.

Com carinho,
Mayra Gaiato –  Psicóloga e neurocientista

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