“Mamãe, você vai virar estrelinha?”
Imagine ouvir essa pergunta do seu filho depois de contar que recebeu um diagnóstico de câncer.
Talvez a primeira reação seja tentar tranquilizá-lo imediatamente: “Claro que não, meu amor. A mamãe vai ficar bem”.
É uma resposta compreensível. Quando amamos uma criança, queremos protegê-la de tudo aquilo que pode provocar medo, tristeza ou insegurança.
Mas existe uma questão importante: proteger uma criança não significa esconder dela tudo o que é difícil.
Durante o Outubro Rosa, falamos muito sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. Mas existe uma conversa que também merece atenção: o que acontece emocionalmente com os filhos quando uma mãe recebe esse diagnóstico?
A criança percebe muito mais do que imaginamos
Mesmo quando os adultos evitam falar sobre uma doença, as crianças podem perceber mudanças na rotina, nas expressões, nas conversas e no comportamento da família.
A mãe começa a frequentar consultas, pode precisar de repouso, apresentar cansaço ou passar por mudanças na aparência.
Os adultos ficam preocupados, e a criança percebe que alguma coisa está diferente.
Quando ninguém explica o que está acontecendo, ela pode tentar preencher essas lacunas com a própria imaginação.
E, dependendo da idade, pode até acreditar que fez alguma coisa errada ou que é responsável pela tristeza da mãe.
Por isso, conversar de maneira adequada ao desenvolvimento da criança costuma ser mais protetivo do que mantê-la completamente afastada da realidade.
Não precisamos contar todos os detalhes de uma vez. Precisamos oferecer informações verdadeiras, simples e compatíveis com aquilo que ela consegue compreender.
Como explicar o câncer para uma criança?
Uma possibilidade é começar dizendo:
“A mamãe descobriu uma doença chamada câncer. Ela está sendo acompanhada por médicos e vai precisar fazer um tratamento. Em alguns dias, pode ficar mais cansada ou precisar descansar mais. Mas você pode conversar comigo e fazer perguntas sempre que quiser.”
A explicação pode mudar conforme a idade e a capacidade de compreensão da criança.
Os pequenos geralmente precisam de informações mais concretas, relacionadas ao que vai mudar no cotidiano: quem vai buscá-los na escola, quem vai preparar o jantar ou por que a mãe precisará ficar alguns dias no hospital.
Crianças maiores podem querer saber sobre o tratamento, a possibilidade de queda de cabelo e até sobre a morte.
E aqui existe algo fundamental: não precisamos responder a perguntas que a criança ainda não fez, mas também não devemos fugir daquelas que ela tem coragem de fazer.
Se seu filho perguntar se você vai morrer, não é necessário prometer algo que ninguém pode garantir.
Você pode responder:
“Eu entendo que você esteja com medo. O câncer é uma doença séria, mas existem tratamentos, e os médicos estão cuidando de mim. Ainda não sabemos tudo o que vai acontecer, mas vamos conversar sobre isso e você não precisa guardar suas preocupações sozinho.”
A resposta deve considerar a situação clínica real e aquilo que a família sabe naquele momento.
E se a criança chorar, ficar irritada ou mudar de comportamento?
Cada criança reage de uma maneira.
Algumas fazem muitas perguntas. Outras parecem não demonstrar preocupação e voltam a brincar logo depois da conversa. Há também aquelas que ficam mais apegadas, apresentam alterações no sono, irritabilidade ou medo de se separar da mãe.
Isso não significa necessariamente que algo esteja errado. As crianças têm maneiras diferentes de processar acontecimentos difíceis.
O importante é observar se essas reações persistem, se provocam sofrimento intenso ou se começam a interferir na escola, no sono, nas relações e nas atividades do cotidiano.
Também é essencial preservar, sempre que possível, referências importantes da rotina.
Saber quem estará presente, o que vai acontecer durante o dia e com quem poderá contar ajuda a criança a se sentir mais segura em um momento de tantas mudanças.
E lembre-se: ela pode participar da vida familiar sem assumir responsabilidades emocionais que pertencem aos adultos.
Uma criança pode fazer um desenho para a mãe, ajudar em uma pequena tarefa ou demonstrar carinho. Mas não deve sentir que precisa ser forte o tempo inteiro ou esconder a própria tristeza para não preocupar a família.
O amor também aparece nas conversas difíceis
Sei que muitas mães, diante de um diagnóstico de câncer, já estão enfrentando seus próprios medos. Pensar em como contar aos filhos pode parecer mais uma tarefa impossível.
Mas você não precisa encontrar palavras perfeitas.
Pode dizer que está triste. Pode explicar que também sente medo em alguns momentos. Pode reconhecer que ainda não tem todas as respostas.
O importante é mostrar que os sentimentos podem ser compartilhados e que existem adultos disponíveis para cuidar da criança.
Se a situação estiver muito difícil, um psicólogo com experiência em infância e adoecimento familiar pode ajudar a construir essa conversa e acompanhar as necessidades emocionais dos filhos.
E quero deixar uma reflexão especialmente importante neste Outubro Rosa.
Quando uma mãe recebe um diagnóstico de câncer, ela não deixa de ser mãe. Mas também não precisa carregar sozinha a responsabilidade de proteger emocionalmente toda a família enquanto enfrenta a própria doença.
Ela também precisa de acolhimento, apoio e cuidado.
Se uma criança perguntar “Mamãe, você vai virar estrelinha?”, talvez não exista uma resposta capaz de eliminar completamente seu medo.
Mas existe algo que podemos oferecer: a certeza de que suas perguntas serão ouvidas, seus sentimentos serão respeitados e ela não precisará enfrentar suas preocupações sozinha.
Porque cuidar de uma criança também é ajudá-la a atravessar os momentos difíceis da vida com verdade, amor e segurança.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista