“Mayra, o filho da minha amiga já está lendo, e o meu ainda não.”
“Meu sobrinho começou a falar muito antes.”
“Na escola, todas as crianças já conseguem fazer isso, menos o meu filho.”
Essas são preocupações que escuto com frequência. E percebo que, muitas vezes, por trás delas existe uma pergunta que os pais nem sempre fazem em voz alta: será que meu filho está ficando para trás?
É compreensível querer acompanhar cada conquista. Afinal, ver uma criança aprender a falar, andar, escrever, fazer amigos ou realizar alguma coisa sozinha é motivo de alegria. O problema começa quando essas conquistas deixam de ser celebradas e passam a ser comparadas.
Parece que existe uma corrida invisível acontecendo durante a infância. Quem falou primeiro? Quem aprendeu a ler mais cedo? Quem já dorme sozinho? Quem é mais independente?
Mas será que estamos dando às crianças o tempo necessário para crescer?
Desenvolvimento não é competição
O cérebro infantil passa por transformações intensas ao longo dos primeiros anos de vida. Linguagem, atenção, memória, coordenação motora, habilidades sociais e regulação emocional se desenvolvem por meio de processos que envolvem maturação cerebral, experiências e oportunidades de aprendizagem.
Embora existam marcos importantes do desenvolvimento, nem todas as crianças adquirem cada habilidade exatamente no mesmo momento.
Uma pode demonstrar grande interesse por letras, enquanto outra prefere explorar o mundo por meio do movimento. Uma pode se comunicar com facilidade, enquanto outra precisa de mais apoio para organizar suas palavras e interações.
Isso não significa que devemos ignorar diferenças importantes. Os marcos do desenvolvimento ajudam justamente a identificar quando uma criança pode precisar de avaliação e acompanhamento.
Respeitar o ritmo não é simplesmente esperar que tudo aconteça sozinho. É observar, compreender e oferecer os estímulos e apoios adequados, sem transformar cada dificuldade em motivo de comparação.
Quando a expectativa dos adultos pesa sobre a criança
Imagine uma criança que acabou de aprender a escrever o próprio nome. Ela chega feliz para mostrar sua conquista, mas escuta: “Muito bem! Agora você precisa aprender a escrever o sobrenome também”.
Ou aquela que finalmente consegue vestir a camiseta sozinha e, antes de comemorar, já recebe uma nova cobrança: “Agora falta aprender a amarrar o tênis”.
É claro que precisamos incentivar novas habilidades. O desenvolvimento acontece também quando oferecemos desafios possíveis.
Mas existe uma diferença entre incentivar uma criança a avançar e fazer com que ela sinta que aquilo que consegue realizar nunca é suficiente.
Quando olhamos apenas para o próximo marco, corremos o risco de deixar de reconhecer o esforço envolvido na conquista que acabou de acontecer.
E isso importa especialmente para crianças autistas e outras crianças com necessidades específicas de desenvolvimento, que podem precisar de mais tempo, adaptações e diferentes formas de apoio para adquirir determinadas habilidades.
O objetivo não deve ser fazer com que todas cheguem ao mesmo lugar, da mesma maneira e ao mesmo tempo. Deve ser ajudá-las a desenvolver seu potencial, ampliar sua autonomia e participar cada vez mais da própria vida.
Seu filho precisa de estímulo, mas também precisa viver a infância
Eu sempre falo sobre a importância das oportunidades de aprendizagem no cotidiano. Uma criança aprende quando participa das atividades da casa, brinca, conversa, explora ambientes, faz escolhas e tenta resolver pequenos problemas.
Mas isso não significa que cada minuto do dia precise se transformar em uma atividade educativa.
A infância também precisa de brincadeiras sem roteiro, descobertas inesperadas, descanso, convivência e momentos em que a criança possa simplesmente fazer aquilo de que gosta.
Nem toda experiência precisa produzir uma habilidade imediatamente observável para ter valor.
Às vezes, o desenvolvimento está acontecendo enquanto a criança inventa uma história, repete pela décima vez a mesma brincadeira ou passa vários minutos observando uma formiga no jardim.
E nós, adultos, precisamos aprender a reconhecer a importância desses momentos.
Neste Dia das Crianças, quero deixar um convite: observe seu filho sem compará-lo por alguns instantes.
Perceba o que ele aprendeu nos últimos meses. Aquela dificuldade que hoje consegue enfrentar melhor. A palavra nova. A tentativa de fazer algo sozinho. A maneira como passou a pedir ajuda, demonstrar carinho ou expressar suas vontades.
Se houver dúvidas sobre seu desenvolvimento, procure orientação profissional. Identificar dificuldades e oferecer apoio precocemente pode fazer uma diferença importante.
Mas não deixe que a preocupação com o que ainda falta aprender impeça você de enxergar tudo aquilo que seu filho já está construindo.
A infância não é uma corrida para chegar mais rápido à vida adulta. É uma etapa da vida que merece ser vivida, respeitada e celebrada.
E talvez, neste Dia das Crianças, uma das coisas mais importantes que possamos oferecer aos nossos filhos seja justamente isso: o direito de crescer sem precisar competir o tempo inteiro.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista