Por Mayra Gaiato, psicóloga e neurocientista
No dia 20 de outubro, o influenciador Felca publicou um vídeo que trouxe à tona uma discussão muito importante: as consequências que o bullying pode deixar na vida de uma pessoa.
Ele contou que sofreu agressões físicas, humilhações e exclusão durante os anos escolares e revelou seu diagnóstico de fobia social, também conhecida como transtorno de ansiedade social. Segundo seu relato, essas experiências contribuíram para dificuldades que continuaram na vida adulta.
Ao conhecer essa história, penso em quantas crianças podem estar vivendo situações semelhantes neste exato momento, muitas vezes sem conseguir contar aos pais o que está acontecendo.
E quero chamar a atenção para algo: o bullying não termina necessariamente quando a criança sai da escola.
Quando o medo acompanha a criança
Uma criança que é humilhada repetidamente pode começar a perceber determinados ambientes como ameaçadores.
Ela passa a antecipar rejeições, teme ser ridicularizada e pode evitar situações nas quais antes se sentia confortável.
Isso não significa que toda criança que sofre bullying desenvolverá fobia social. Os transtornos de ansiedade têm múltiplos fatores envolvidos.
Mas experiências prolongadas de violência e humilhação podem contribuir para o sofrimento emocional.
A fobia social também não é simplesmente timidez. Trata-se de um medo intenso de avaliações negativas, capaz de provocar grande sofrimento e prejudicar a participação em atividades cotidianas.
Como perceber que algo não vai bem?
Nem sempre uma criança chega em casa dizendo que está sofrendo bullying.
Alguns começam a inventar desculpas para não ir à escola.
Outras apresentam dores de barriga frequentes, mudanças no sono, irritabilidade, tristeza ou perda de interesse por atividades de que gostavam.
Também podemos perceber isolamento, medo de determinados colegas e alterações importantes no comportamento.
Esses sinais não confirmam, isoladamente, que existe bullying. Mas indicam que precisamos investigar o que está acontecendo.
Uma pergunta acolhedora pode abrir uma conversa: “Percebi que você anda diferente quando falamos da escola. Tem alguma coisa acontecendo que está deixando você triste ou preocupado?”
O mais importante é ouvir sem minimizar.
O que pais e escolas podem fazer?
Quando uma criança relata agressões ou humilhações, precisamos demonstrar que acreditamos nela e que ela não é responsável pela violência sofrida.
Frases como “isso é brincadeira” ou “você precisa aprender a se defender sozinho” podem aumentar a sensação de desamparo.
A família deve procurar a escola, registrar os episódios e cobrar medidas concretas de proteção. Não basta orientar a criança a ignorar os agressores. A instituição precisa interromper a violência, acompanhar os envolvidos e construir um ambiente seguro.
Também é importante observar se a criança necessita de acompanhamento psicológico. Quando há medo intenso, isolamento, sofrimento persistente ou prejuízo nas atividades, uma avaliação profissional pode fazer diferença.
Se houver falas sobre não querer viver ou intenção de se machucar, a busca por ajuda deve ser imediata.
A infância merece proteção
O relato de Felca nos lembra que uma pessoa pode crescer, conquistar reconhecimento profissional e, ainda assim, conviver com marcas de experiências dolorosas.
Mas também precisamos lembrar que existem caminhos de cuidado, tratamento e recuperação.
Como adultos, temos a responsabilidade de reconhecer o sofrimento infantil antes que ele se prolongue por anos.
Nenhuma criança deveria precisar esperar chegar à vida adulta para descobrir que aquilo que sofreu não era uma brincadeira e que merecia ter sido protegida.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e neurocientista