“Mayra, meu filho não gosta de sentar na grama, evita brincar no chão e parece ter medo de subir nos brinquedos do parquinho. Isso é normal?”
Essa é uma dúvida que pode surgir quando os pais começam a observar a maneira como seus filhos exploram o ambiente.
Enquanto algumas crianças adoram correr, rolar na grama, subir em brinquedos e experimentar diferentes movimentos, outras preferem permanecer sentadas, evitam determinadas superfícies ou demonstram insegurança diante de atividades que exigem equilíbrio e coordenação.
Mas será que isso é apenas uma preferência ou pode indicar alguma dificuldade no desenvolvimento?
Antes de tudo, quero explicar uma coisa: nem toda criança que evita brincar no chão apresenta um atraso motor ou uma alteração sensorial. Cada uma tem seus interesses, experiências e seu próprio ritmo de desenvolvimento.
No entanto, quando essa resistência é frequente, limita as brincadeiras ou vem acompanhada de dificuldades para realizar movimentos esperados para a idade, vale observar com mais atenção.
Por que brincar no chão é tão importante?
Quando pensamos no desenvolvimento infantil, geralmente lembramos da fala, da aprendizagem e da interação social. Mas o movimento também tem um papel fundamental nesse processo.
Desde os primeiros meses de vida, experiências como ficar de bruços enquanto está acordado e supervisionado, alcançar brinquedos, rolar, sentar, engatinhar e mudar de posição ajudam o bebê a desenvolver controle corporal e habilidades motoras.
Conforme cresce, a criança amplia esse repertório ao caminhar, correr, agachar, pular, equilibrar-se e explorar diferentes ambientes.
Essas experiências envolvem músculos, articulações e sistemas sensoriais que trabalham juntos para que o corpo consiga se movimentar com segurança.
Brincar no chão pode oferecer muitas dessas oportunidades. Ao tentar alcançar um brinquedo, por exemplo, a criança precisa organizar seus movimentos, ajustar a postura e encontrar maneiras de chegar até aquilo que deseja.
Mas não existe uma única brincadeira capaz de garantir o desenvolvimento motor. O importante é oferecer oportunidades variadas de movimento, adequadas à idade e às possibilidades de cada criança.
E aqui faço uma observação: sentar na grama, por si só, não fortalece a musculatura. O fortalecimento e o desenvolvimento das habilidades motoras dependem dos movimentos realizados, da participação dos músculos e de outros fatores individuais.
Quando a dificuldade pode estar relacionada à hipotonia?
Algumas crianças apresentam uma condição chamada hipotonia muscular, caracterizada pela redução do tônus muscular.
O tônus é a tensão presente nos músculos mesmo quando estamos em repouso. Ele participa da manutenção da postura e da preparação do corpo para realizar movimentos.
Uma criança com hipotonia pode apresentar dificuldades para manter determinadas posições, sustentar o tronco, realizar movimentos contra a gravidade ou participar de atividades que exigem estabilidade corporal.
Em alguns casos, os pais percebem que ela se cansa facilmente, prefere ficar apoiada ou encontra dificuldade em brincadeiras que envolvem subir, pular e equilibrar-se.
A hipotonia pode ocorrer em crianças autistas, mas não é uma característica presente em todas elas. Também pode estar associada a diferentes condições do neurodesenvolvimento, neurológicas ou musculares.
Por isso, não devemos concluir que uma criança tem hipotonia apenas porque não gosta de brincar no chão ou apresenta dificuldades motoras.
Quando existem sinais persistentes, a avaliação profissional é importante para compreender o que está acontecendo e identificar os apoios necessários.
E quando o problema não é o movimento, mas a sensação?
Agora imagine outra situação.
A criança consegue correr, subir e pular, mas se recusa a pisar descalça na grama. Não gosta de areia, evita determinadas texturas e demonstra grande desconforto quando precisa tocar em algumas superfícies.
Nesse caso, podemos estar diante de uma questão relacionada ao processamento sensorial.
Algumas crianças apresentam hiper-reatividade sensorial, ou seja, respondem de maneira muito intensa a determinados estímulos.
A textura da grama, a sensação da areia entre os dedos ou o contato com uma superfície desconhecida podem provocar um desconforto real.
Também existem crianças que apresentam respostas reduzidas a determinados estímulos ou buscam experiências sensoriais mais intensas.
Essas diferenças podem ocorrer no autismo, mas não são exclusivas dele.
O mais importante é compreender que a criança não está necessariamente fazendo birra ou tentando desafiar os adultos.
Se determinada sensação é muito desagradável, obrigá-la a permanecer naquela situação pode aumentar o sofrimento e a resistência.
Podemos oferecer alternativas, permitir uma aproximação gradual e respeitar seus sinais, sem transformar cada experiência em uma obrigação.
Como a ABA naturalista pode ajudar nas brincadeiras?
Quando falamos em desenvolvimento infantil, gosto de lembrar que muitas oportunidades de aprendizagem acontecem nas atividades mais simples do cotidiano.
É justamente nesse contexto que podemos utilizar estratégias da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) em ambientes naturais, aproveitando interesses e situações significativas para a criança.
Imagine que seu filho gosta muito de carrinhos, mas evita sentar no chão para brincar.
Em vez de exigir que ele permaneça sentado por determinado tempo, podemos começar oferecendo o brinquedo em uma posição confortável, participar da brincadeira e criar pequenas oportunidades para que ele se movimente, faça escolhas, peça ajuda e interaja.
Se a criança demonstra interesse por uma bola, podemos aproveitar esse momento para estimular a troca de turnos, a comunicação, a atenção compartilhada e a iniciativa.
O objetivo é tornar a aprendizagem funcional e significativa, respeitando o interesse e a participação da criança.
Mas é importante fazer uma distinção: a ABA naturalista não substitui a fisioterapia nem é, por si só, um tratamento para hipotonia muscular.
Quando existem dificuldades de força, postura, equilíbrio ou coordenação, profissionais como fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais podem avaliar quais intervenções são necessárias.
O trabalho integrado permite olhar para diferentes aspectos do desenvolvimento sem esperar que uma única abordagem resolva todas as dificuldades.
O que os pais podem fazer em casa?
Não precisamos transformar a sala em uma clínica nem planejar atividades complexas para oferecer boas oportunidades de desenvolvimento.
Pequenas brincadeiras, adaptadas à idade, podem fazer parte da rotina:
- Brincar de alcançar objetos: distribuir brinquedos próximos à criança, em posições seguras, para incentivar movimentos e mudanças de postura.
- Explorar diferentes posições: brincar sentado, agachado ou em pé, conforme as habilidades e necessidades de apoio da criança.
- Criar caminhos com almofadas: para crianças que já possuem as habilidades motoras necessárias, organizar pequenos percursos supervisionados que convidem a passar por obstáculos baixos e seguros.
- Brincar com bolas: rolar, lançar e receber uma bola pode oferecer oportunidades para trabalhar coordenação, interação e atenção compartilhada.
- Conhecer diferentes superfícies: apresentar grama, tapetes e outras texturas de maneira gradual, respeitando a tolerância e a vontade da criança.
Essas atividades não devem provocar dor, medo intenso ou exaustão. Também precisam ser adaptadas quando existem dificuldades motoras, alterações sensoriais ou condições de saúde específicas.
E lembre-se: não precisamos corrigir cada movimento nem transformar toda brincadeira em uma sequência de comandos.
A criança também precisa brincar simplesmente pelo prazer de brincar.
Quando procurar uma avaliação?
Se seu filho apresenta dificuldades persistentes para sentar, levantar, caminhar, correr ou realizar atividades esperadas para sua idade, vale conversar com o pediatra e com os profissionais que acompanham seu desenvolvimento.
Quedas muito frequentes, cansaço desproporcional, dificuldades importantes de equilíbrio, perda de habilidades já adquiridas ou limitações que interferem na participação cotidiana também merecem atenção. A perda de habilidades, especialmente, deve ser avaliada prontamente.
O mesmo vale quando as sensibilidades sensoriais provocam sofrimento intenso ou impedem a criança de participar de atividades importantes.
Não se trata de comparar seu filho com outras crianças nem de exigir que ele alcance todas as habilidades no mesmo momento.
Trata-se de compreender suas necessidades e oferecer apoio quando necessário.
Quero terminar com uma reflexão.
Às vezes, olhamos para uma criança que não quer sentar na grama, evita subir no escorregador ou prefere brincar sempre da mesma maneira e pensamos apenas que ela precisa tentar mais.
Mas talvez ela esteja enfrentando uma dificuldade que ainda não conseguimos perceber.
Antes de exigir que uma criança participe de determinada brincadeira, precisamos entender o que aquela experiência representa para ela.
Porque desenvolver habilidades é importante, mas fazer isso com segurança, respeito e prazer também faz parte do desenvolvimento.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista