O fim do ano chega e, com ele, as apresentações, cantatas, confraternizações e festas escolares. Para muitas famílias, é um momento esperado com ansiedade e emoção. Mas e quando a criança autista não quer participar? Devemos insistir para que ela não fique de fora?
Antes de qualquer decisão, precisamos entender o que está por trás dessa recusa.
Uma festa escolar pode parecer algo simples para os adultos, mas envolve uma série de desafios para algumas crianças autistas. Música alta, muitas pessoas, mudanças na rotina, roupas diferentes e a expectativa de se apresentar diante de uma plateia podem provocar desconforto e sobrecarga sensorial.
Isso não significa que a criança não goste da escola, dos colegas ou que não queira fazer parte daquele momento. Às vezes, ela simplesmente não consegue lidar com tudo o que está acontecendo ao mesmo tempo.
Eu sempre digo que inclusão não é colocar todas as crianças fazendo exatamente a mesma coisa. Inclusão é criar condições para que cada uma possa participar, respeitando suas necessidades.
Por isso, em vez de obrigar, podemos conversar com a escola e buscar alternativas. Talvez a criança consiga participar apenas de uma parte da apresentação, ficar em um ambiente mais tranquilo ou acompanhar a atividade sem precisar subir ao palco. Conhecer o local antes, ensaiar com antecedência e saber o que vai acontecer também pode ajudar.
É importante observar se estamos incentivando a criança a enfrentar um desafio possível ou exigindo que ela suporte uma situação que está causando sofrimento.
E existe outra questão: muitas vezes, o desejo de ver o filho participando é nosso. Queremos a fotografia, a lembrança, a emoção de assistir à apresentação. Tudo isso é legítimo. Mas precisamos tomar cuidado para que nossas expectativas não sejam maiores do que aquilo que a criança consegue viver naquele momento.
Podemos estimular novas experiências sem desrespeitar limites.
E também podemos aceitar que, naquele ano, participar de outra maneira seja a melhor escolha.
A festa passa. A confiança que a criança constrói ao perceber que é compreendida e respeitada permanece.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista