“Desculpa, mamãe.”
A criança deixa cair um brinquedo e pede desculpas. Faz uma pergunta durante uma conversa e pede desculpas. Precisa de ajuda para realizar uma tarefa e, novamente, se desculpa.
Você já observou esse comportamento?
Ensinar nossos filhos a reconhecer erros e considerar os sentimentos dos outros é fundamental.
Mas existe uma diferença entre compreender a própria responsabilidade e sentir que precisamos pedir desculpas simplesmente por ocupar espaço.
Quando uma criança se desculpa o tempo inteiro, vale olhar com carinho para o contexto.
O que pode estar por trás desse comportamento?
Algumas crianças são naturalmente mais cautelosas.
Outras podem estar passando por um período de insegurança, medo de desapontar os adultos ou preocupação excessiva com a reação das pessoas.
Também existem crianças que aprenderam a pedir desculpas como uma maneira de encerrar situações desconfortáveis rapidamente.
Isso não significa que o comportamento, por si só, indique um transtorno emocional. Precisamos considerar a idade, a personalidade, as experiências e a frequência com que acontece.
O ponto de atenção surge quando a criança demonstra medo constante de errar, evita expressar opiniões ou assume responsabilidades que não são suas.
Como ensinar responsabilidade sem alimentar a culpa?
Uma das estratégias mais importantes é mostrar que errar faz parte da aprendizagem.
Se a criança derramou água sem querer, podemos ajudá-la a limpar e explicar o que aconteceu, sem transformar o episódio em uma questão de culpa.
Se magoou alguém, podemos conversar sobre o sentimento da outra pessoa e pensar juntos em uma forma de reparar a situação.
O objetivo não é fazer a criança repetir automaticamente a palavra “desculpa”, mas ajudá-la a compreender suas atitudes.
Também precisamos ensinar que pedir ajuda, fazer perguntas e expressar necessidades não são comportamentos pelos quais alguém deva se desculpar.
Uma frase simples pode fazer diferença: “Você não precisa pedir desculpas por precisar de ajuda. Estou aqui para isso.”
O exemplo começa nos adultos
As crianças aprendem muito observando nossas relações.
Quando reconhecemos um erro e pedimos desculpas de maneira sincera, mostramos que assumir responsabilidades não diminui ninguém.
Da mesma forma, quando acolhemos uma falha sem humilhação, ensinamos que o afeto não depende de acertar sempre.
Se os pedidos de desculpas vierem acompanhados de sofrimento intenso, medo persistente ou mudanças importantes de comportamento, é indicado buscar orientação profissional.
Quero que nossos filhos aprendam a reconhecer quando precisam reparar um erro. Mas também desejo que cresçam sabendo que têm o direito de falar, perguntar, experimentar e aprender.
Uma criança emocionalmente segura não é aquela que nunca erra. É aquela que sabe que pode errar sem perder seu valor.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista