“Mayra, meu filho vai fazer o Enem e eu não sei mais se devo cobrar para ele estudar ou se é melhor deixá-lo mais tranquilo.”
Essa é uma dúvida muito comum nesta época do ano.
De um lado, os pais sabem que a prova é importante e querem que o filho aproveite as oportunidades. Do outro, muitos adolescentes já chegam a esta reta final cansados, ansiosos e com a sensação de que ainda precisam estudar tudo.
E aqui existe um ponto importante: mais horas de estudo não significam, necessariamente, mais aprendizagem.
Para aprender, nosso cérebro precisa prestar atenção, compreender a informação, relacioná-la ao que já conhece e conseguir recuperá-la depois.
Quando o adolescente está muito ansioso, dormindo pouco ou estudando até a exaustão, alguns desses processos podem ficar prejudicados.
Dormir também faz parte da preparação
Virar a noite estudando pode dar a sensação de esforço, mas o sono participa da consolidação da memória.
É durante o descanso que o cérebro também organiza e fortalece informações aprendidas ao longo do dia.
Por isso, nesta reta final, pode ser mais produtivo manter uma rotina possível, com períodos de revisão, resolução de questões, pausas e sono adequado, do que tentar compensar a insegurança estudando até de madrugada.
Atividade física, momentos de lazer e pequenas pausas também não significam falta de comprometimento.
O cérebro não precisa estar estudando o tempo inteiro para estar se preparando.
E a família? Como pode ajudar?
Uma das coisas mais importantes é perceber como o Enem está sendo falado dentro de casa.
Se todas as conversas viraram “Você estudou?”, “Quanto tirou no simulado?”, “Fulano está estudando mais que você” ou “Você precisa passar”, a casa pode deixar de ser um lugar de apoio e se tornar mais uma fonte de pressão.
Experimente trocar algumas dessas cobranças por perguntas como:
“Como você está se sentindo com a prova?”
“Tem alguma coisa em que eu posso ajudar?”
“Como podemos organizar essa semana para você ficar mais tranquilo?”
A família também pode ajudar com questões práticas: conferir documentos, local de prova, horário e transporte. Parece simples, mas retirar pequenas preocupações da cabeça do adolescente também ajuda.
E evite comparações.
Cada jovem chega ao Enem com uma história, um ritmo de aprendizagem e expectativas diferentes.
Se a ansiedade estiver interferindo de forma importante no sono, na alimentação, nos relacionamentos ou até impedindo o adolescente de estudar, vale procurar ajuda profissional.
O Enem é uma prova importante, mas não pode se transformar em uma medida do valor de um filho.
Talvez, nesta reta final, ele não precise ouvir mais uma vez que precisa estudar.
Talvez precise saber que, independentemente da nota que aparecer depois, em casa continuará encontrando apoio para pensar nos próximos passos.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista