Tags: Adolescência | Neurodivergência | Saúde mental | Hábitos saudáveis
Por que falar de hábitos importa tanto?
Quando falamos de desenvolvimento infantil, especialmente no contexto do autismo e do TDAH, é comum focarmos em terapias, diagnósticos e medicações. Mas existe um conjunto de fatores primordiais — o sono, o movimento diário e o uso de telas — que têm um impacto profundo no funcionamento emocional, cognitivo e comportamental.
Esses fatores não apenas modulam os sintomas, mas influenciam diretamente a forma como o cérebro se desenvolve. E, infelizmente, estão cada vez mais desregulados na infância e, sobretudo, na adolescência.
O que são as Diretrizes de Movimento 24h?
As Diretrizes de Movimento 24h propõem que a saúde infantojuvenil deve ser pensada de forma integrada ao longo do dia, incluindo:
- Sono adequado
- 10 a 13 horas para crianças pequenas
- 8 a 10 horas para adolescentes
- Atividade física diária
- 180 minutos para pré-escolares
- Pelo menos 60 minutos/dia para crianças maiores e adolescentes
- Tempo de tela recreativa limitado
- Até 1 hora/dia para os pequenos
- Até 2 horas/dia para maiores de 5 anos
Esses três elementos são interdependentes. Uma criança que dorme mal tende a se movimentar menos e buscar regulação em telas. Uma rotina pobre em movimento compromete o sono. E assim por diante.
O que mostra o maior estudo global sobre o tema
Uma meta-análise publicada no Journal of Sport and Health Science analisou dados de 387.437 crianças e adolescentes entre 3 e 18 anos, de 23 países. O objetivo era verificar quantos deles estavam seguindo as diretrizes de movimento, sono e uso de telas.
Os resultados mostraram um padrão preocupante:
- Apenas 7,12% da amostra total cumpria as três recomendações ao mesmo tempo
- Entre adolescentes, esse número caiu para 2,68%
- 28,59% dos adolescentes não cumpriam nenhuma das três
O que isso significa para crianças e adolescentes neurodivergentes
Crianças com autismo e TDAH, por exemplo, já apresentam, em seu perfil clínico vulnerabilidades nos três pilares:
- Sono: dificuldade para iniciar e manter o sono, despertares frequentes, ciclos desorganizados
- Telas: hiperfoco, uso como regulador emocional, dependência de estímulos intensos
- Movimento: baixa iniciativa, evitam atividades motoras, sedentarismo associado aos interesses restritos
Quando esses hábitos estão desregulados, os sintomas se intensificam, o comportamento se torna mais desorganizado e o avanço terapêutico fica comprometido.
Impactos observados na clínica e sustentados pela ciência
A rotina mal ajustada repercute diretamente em:
- Irritabilidade, crises ou agitação
- Aumento da impulsividade e da ansiedade
- Queda de rendimento escolar e atenção
- Menor tolerância a frustrações
- Redução na motivação e no prazer
- Desconexão social e dificuldade de aprendizado de regras
Para crianças neurodivergentes, que já precisam de mais suporte na autorregulação, uma rotina desorganizada pode ser o fator que desestabiliza todo o ambiente familiar e escolar.
A América do Sul em destaque: os piores índices globais
Segundo o estudo, a América do Sul foi a região com os piores índices de adesão:
- Apenas 2,93% das crianças e adolescentes seguem todas as diretrizes
- Mais de 30% não seguem nenhuma
Esses dados refletem desigualdades estruturais, mas também a falta de orientação acessível e prática para famílias e escolas.
Como pais e profissionais podem agir
Mudar tudo de uma vez é impossível. Mas mudar um pouco, todos os dias, é viável!
Para o sono:
- Estabeleça rotina previsível para dormir e acordar
- Reduza estímulos visuais, sonoros e luminosos no fim do dia
- Evite telas antes de dormir e inclua rituais calmos (leitura, banho, música suave)
Para o tempo de tela:
- Combine limites claros com alternativas interessantes
- Use ferramentas de contagem visual de tempo
- Não use telas como forma de acalmar ou premiar
Para o movimento:
- Priorize atividades prazerosas e ajustadas ao perfil sensorial da criança
- Estimule passeios, brincadeiras corporais, jogos com movimento
- Envolva a criança ou o jovem em tarefas do cotidiano com movimento (regar plantas, subir escadas, ir ao mercado)
A rotina como cuidado de base
O estudo não traz uma novidade, mas uma confirmação com números daquilo que a prática clínica já revela: nossas crianças e adolescentes estão vivendo rotinas que comprometem seu desenvolvimento.
Sono, movimento e telas não são acessórios. São peças centrais da intervenção clínica e educativa. Ignorá-los é como esperar progresso terapêutico sem cuidar do terreno onde o cérebro se desenvolve.
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