A terapia ensina. A rotina fortalece

A terapia e a rotina fazem toda diferença no desenvolvimento de pessoas autistas. Aprenda mais sobre o assunto com esse texto!

Existe uma frase que costumo repetir para muitas famílias que chegam ao consultório:

A terapia é fundamental. Mas ela não pode ser o único lugar onde a criança aprende.

E não digo isso para diminuir a importância dos profissionais.

Muito pelo contrário.

O trabalho terapêutico oferece estratégias, organiza objetivos e ensina habilidades importantes.

Mas o cérebro não aprende apenas durante os 50 minutos de uma sessão.

Ele aprende vivendo.

O desenvolvimento acontece na repetição da vida real

Imagine que uma criança aprendeu, na terapia, a pedir ajuda quando encontra uma dificuldade.

Se essa habilidade aparece apenas dentro do consultório, ela ainda não faz parte do repertório da criança.

Agora imagine que ela também é incentivada a pedir ajuda em casa, na escola, no supermercado, durante uma brincadeira ou enquanto prepara um lanche.

É nesse momento que acontece o que chamamos de generalização.

Ou seja, a criança compreende que aquela habilidade pode ser utilizada em diferentes pessoas, ambientes e situações.

E isso faz toda a diferença.

Porque o objetivo nunca é que ela tenha sucesso apenas na terapia.

O objetivo é que ela consiga usar essas habilidades na vida.

A casa pode se tornar um dos ambientes mais ricos para o desenvolvimento

Muitas famílias acreditam que precisam criar atividades complexas ou comprar materiais específicos.

Na maioria das vezes, não é isso que faz diferença.

O desenvolvimento acontece justamente nas situações mais simples do cotidiano.

Quando a criança ajuda a guardar os brinquedos.

Quando participa de uma receita.

Quando escolhe a roupa que vai vestir.

Quando espera sua vez durante um jogo.

Quando organiza os livros da estante.

Quando ajuda a colocar a mesa.

Esses momentos trabalham comunicação, autonomia, linguagem, planejamento, flexibilidade, funções executivas e habilidades sociais de forma muito mais natural do que imaginamos.

É exatamente esse olhar que utilizamos na ABA Naturalista: transformar situações reais em oportunidades de aprendizagem.

Você não precisa fazer isso sozinho

Outro ponto que considero muito importante é envolver toda a rede de apoio.

Em muitas famílias, a criança convive diariamente com babás, cuidadores, avós, professores particulares ou outros adultos que fazem parte da rotina.

Quando essas pessoas compreendem quais habilidades estão sendo estimuladas e utilizam estratégias semelhantes às trabalhadas na terapia, as oportunidades de aprendizagem aumentam de forma significativa.

Não significa transformar todos em terapeutas.

Significa que todos podem aprender pequenas formas de incentivar a comunicação, estimular a autonomia, respeitar o tempo da criança e fortalecer comportamentos importantes no dia a dia.

Quanto mais consistentes forem essas experiências, maiores são as chances de que as habilidades aprendidas realmente façam parte da rotina.

Mais importante do que intensidade é a constância

Muitas pessoas acreditam que o desenvolvimento depende apenas de aumentar o número de horas de terapia.

Mas a ciência mostra que a frequência das oportunidades de aprendizagem ao longo do dia também tem um papel fundamental.

Uma habilidade praticada várias vezes em diferentes contextos costuma se consolidar com muito mais facilidade do que aquela que aparece apenas durante uma sessão semanal.

Por isso, pequenas oportunidades espalhadas pela rotina podem ter um impacto enorme.

Não estamos falando de fazer terapia o dia inteiro.

Estamos falando de transformar momentos comuns em experiências significativas.

O desenvolvimento mora nas pequenas oportunidades

Às vezes, as famílias me perguntam:

“Mayra, o que mais posso fazer pelo meu filho?”

Minha resposta quase nunca envolve comprar um novo material ou aumentar a agenda de atividades.

Geralmente, eu convido essa família a olhar para dentro de casa.

Porque é ali que acontecem centenas de oportunidades de desenvolvimento todos os dias.

Uma conversa durante o café da manhã.

Uma receita preparada em família.

Um brinquedo guardado junto.

Uma ida ao mercado.

Uma roupa escolhida pela própria criança.

Nenhum desses momentos parece extraordinário.

Mas, quando são vividos com intenção, eles ajudam a construir autonomia, comunicação, flexibilidade e participação.

E talvez essa seja uma das mensagens mais importantes que eu gostaria de deixar.

O desenvolvimento não acontece apenas na clínica.

Ele acontece, principalmente, na vida.

E quanto mais a família, a escola e toda a rede de apoio caminham na mesma direção, maiores são as oportunidades para que a criança leve o que aprendeu para o lugar onde isso realmente importa: o seu dia a dia.

Com carinho,

Mayra Gaiato
Psicóloga e Neurocientista

Compartilhe:
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Não encontrou o que precisava?

Entre em contato com a gente!