Aprender um segundo idioma desde cedo atrapalha a fala? O que a neurociência realmente nos mostra

Saiba o que a neurociência diz sobre aprender idiomas e o desenvolvimento da comunicação funcional no autismo.

Uma pergunta que recebo com frequência no consultório é:

“Mayra, será que meu filho vai confundir as línguas se aprender inglês muito cedo?”

Ou então:

“Ele ainda está aprendendo português. Não seria melhor esperar?”

Essa dúvida faz sentido. 

Durante muito tempo, acreditou-se que aprender dois idiomas na primeira infância poderia atrasar a linguagem ou dificultar o desenvolvimento da fala.

Hoje, a ciência nos mostra um cenário bem diferente.

O cérebro infantil nasce preparado para aprender a linguagem. 

E, nos primeiros anos de vida, ele vive um dos períodos mais intensos de transformação da vida: a chamada neuroplasticidade.

O cérebro aprende muito mais do que palavras

Quando falamos em um segundo idioma, muita gente pensa apenas em vocabulário.

Mas o cérebro está fazendo muito mais do que decorar novas palavras.

Ele está aprendendo a perceber sons diferentes.

A reconhecer padrões.

A alternar entre dois sistemas linguísticos.

A selecionar informações importantes.

A inibir respostas automáticas.

Tudo isso envolve áreas cerebrais relacionadas às funções executivas, como atenção, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e controle inibitório.

Essas habilidades são importantes não apenas para aprender uma língua, mas para resolver problemas, adaptar-se a mudanças e organizar o pensamento ao longo da vida.

Neuroplasticidade: a janela que favorece novas aprendizagens

Costumo explicar para as famílias que o cérebro infantil funciona como uma grande obra em construção.

Nos primeiros anos de vida, bilhões de conexões entre os neurônios estão sendo formadas e reorganizadas todos os dias.

Chamamos isso de neuroplasticidade.

Quanto mais ricas e significativas forem as experiências oferecidas à criança, maiores são as oportunidades para fortalecer essas conexões.

É por isso que a infância representa um período tão favorável para a aprendizagem de diferentes idiomas.

Isso não significa que adultos não possam aprender outra língua.

Podem, e muito.

Mas, na infância, o cérebro costuma fazer isso com mais naturalidade, principalmente quando o contato acontece de forma constante e inserido nas experiências do dia a dia.

Aprender dois idiomas não significa confundir a criança

Outro receio muito comum é imaginar que a criança ficará “confusa” por ouvir duas línguas.

Na prática, isso não costuma acontecer.

É verdade que algumas crianças podem misturar palavras dos dois idiomas durante uma fase do desenvolvimento.

Isso faz parte do processo de aprendizagem e não representa um atraso.

Com o aumento da exposição e da experiência, o cérebro vai aprendendo a organizar cada língua de maneira cada vez mais eficiente.

E as crianças autistas?

Essa também é uma pergunta frequente.

Muitas famílias recebem a orientação de abandonar um dos idiomas por medo de prejudicar o desenvolvimento da linguagem.

Hoje, os estudos mais recentes mostram que não existe evidência de que o bilinguismo cause prejuízos ao desenvolvimento da linguagem em crianças autistas.

Ao contrário.

Quando existe uma boa orientação profissional e um ambiente rico em interações, manter os dois idiomas pode preservar vínculos familiares, fortalecer a comunicação e ampliar oportunidades sociais e culturais.

Cada criança deve ser avaliada individualmente, mas o diagnóstico de autismo, por si só, não é um motivo para impedir o contato com outra língua.

O mais importante não é quando começa. É como acontece.

Mais do que matricular a criança em uma escola bilíngue ou oferecer aulas desde muito cedo, o que faz diferença é a qualidade da experiência.

Uma nova língua não deve aparecer apenas como uma atividade da agenda.

Ela pode fazer parte das brincadeiras.

Das músicas.

Das histórias.

Dos jogos.

Das conversas.

Quanto mais significado aquele idioma tiver para a criança, maiores são as oportunidades de aprendizagem.

O cérebro aprende melhor quando existe afeto

Existe uma ideia que gosto muito de compartilhar com as famílias.

O cérebro não aprende apenas pela repetição.

Ele aprende, principalmente, quando existe emoção, interesse e vínculo.

Por isso, ouvir uma música em outro idioma com os pais, ler uma história juntos ou brincar utilizando novas palavras costuma ser muito mais poderoso do que decorar listas de vocabulário.

Porque, no fim das contas, aprender uma nova língua não é apenas adquirir uma habilidade para o futuro.

É oferecer ao cérebro novas formas de compreender o mundo.

E quanto mais experiências significativas uma criança vive, maiores são as possibilidades de desenvolvimento.

Com carinho,

Mayra Gaiato
Psicóloga e Neurocientista

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