Na última semana, participei de algumas entrevistas comentando os novos dados divulgados pelo IBGE sobre o acesso ao celular entre crianças e adolescentes no Brasil.
Uma informação chamou especialmente a atenção: pela primeira vez, houve uma redução no número de crianças entre 10 e 13 anos com celular próprio, e a principal preocupação das famílias deixou de ser o custo do aparelho e passou a ser a segurança.
Confesso que recebi essa informação com sentimentos mistos.
Por um lado, é positivo perceber que mais famílias estão preocupadas com os riscos do ambiente digital.
Por outro, as entrevistas me fizeram pensar em algo que observo todos os anos quando chegam as férias escolares.
Muitas vezes, as telas não ocupam apenas o tempo livre das crianças.
Elas acabam ocupando o espaço de experiências que são fundamentais para o desenvolvimento.
E talvez as férias sejam um dos momentos mais importantes para refletirmos sobre isso.
O que o cérebro infantil procura durante as férias — e as telas não conseguem oferecer sozinhas
Quando as férias chegam, muitas famílias se preocupam em encontrar atividades para preencher o tempo das crianças. Mas, do ponto de vista do desenvolvimento, talvez a pergunta mais importante seja outra:
De quais experiências o cérebro infantil realmente precisa para se desenvolver?
Ao longo da infância, o cérebro aprende a partir da combinação de diferentes experiências: movimento, interação social, exploração sensorial, resolução de problemas, criatividade, vínculo e participação na vida cotidiana.
Por isso, durante as férias, atividades aparentemente simples podem oferecer oportunidades extremamente ricas de desenvolvimento.
Participar da rotina da casa, ajudando a organizar brinquedos, separar objetos, cuidar de animais ou preparar pequenas refeições, favorece a autonomia, o planejamento, a atenção e as funções executivas.
Experiências práticas, como cozinhar, plantar uma semente e acompanhar seu crescimento ao longo dos dias, ajudam a criança a compreender conceitos como tempo, espera, responsabilidade e causa e efeito.
Momentos de leitura compartilhada fortalecem a linguagem, a imaginação, a atenção e, principalmente, os vínculos afetivos.
Já as atividades ao ar livre — como brincar em parques, andar de bicicleta, caminhar, explorar a natureza ou simplesmente observar o ambiente — oferecem experiências motoras, sensoriais, sociais e emocionais fundamentais para o desenvolvimento cerebral.
Outro aspecto que me preocupa especialmente durante as férias é o sono.
Quando as crianças passam mais tempo nas telas, muitas acabam dormindo mais tarde e perdendo horas importantes de descanso. E o sono não serve apenas para recuperar energia. É durante o sono que consolidamos aprendizagens, regulamos emoções, fortalecemos a memória e promovemos saúde mental.
Nada disso exige férias perfeitas, viagens caras ou uma programação intensa todos os dias.
Na verdade, o que o cérebro infantil mais precisa é de oportunidades para participar, explorar, criar, interagir e construir memórias.
E talvez a principal reflexão que os novos dados sobre celulares nos tragam seja justamente esta:
Não devemos nos perguntar apenas se as crianças estão seguras na internet. Também precisamos nos perguntar se elas estão tendo oportunidades suficientes para viver plenamente a infância fora dela.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e Neurocientista
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