Seu filho entrou em crise? O que você faz nos primeiros minutos pode mudar tudo

Acalmar e proteger. Esse é seu papel durante a crise, mas existem estratégias que previnem esses comportamentos.

Durante as férias escolares, recebi várias mensagens de famílias dizendo a mesma coisa:

“Mayra, meu filho entrou em crise e eu não soube o que fazer.”

E isso faz sentido.

As férias mudam completamente a rotina. A criança dorme em horários diferentes, viaja, frequenta ambientes mais movimentados e recebe uma quantidade muito maior de estímulos. 

Para muitas crianças autistas, tudo isso pode favorecer episódios de desregulação emocional.

Mas existe uma boa notícia: entender como a crise acontece ajuda você a agir no momento certo.

A crise não começa quando a criança grita

Muita gente acredita que a crise começa quando a criança chora, grita ou se joga no chão.

Na verdade, quando isso acontece, o cérebro já percorreu um caminho importante.

Eu gosto de explicar que a crise funciona como uma onda: ela cresce, atinge um pico e depois diminui. Cada fase pede uma atitude diferente dos adultos.

As seis fases da crise

1. Linha de base

É quando a criança está regulada, tranquila e pronta para aprender.

É aqui que ensinamos habilidades, combinados e estratégias para lidar com frustrações.

2. Gatilho

Começam os primeiros sinais de sobrecarga.

A criança pode apertar as mãos, fechar os olhos, emitir sons diferentes, querer fugir ou ficar mais inquieta.

Esse é o melhor momento para agir.

O ideal é diminuir as demandas, falar menos, reduzir estímulos e oferecer um ambiente mais tranquilo.

3. Aceleração

Os sinais aumentam e a criança começa a perder a capacidade de se autorregular.

Evite insistir, repetir ordens ou fazer muitas perguntas.

Nesse momento, o cérebro já está liberando adrenalina e cortisol, dificultando o processamento das informações.

4. Pico da crise

Aqui não é hora de ensinar.

 É hora de proteger.

Garanta a segurança da criança, diminua estímulos e espere que essa fase passe.

5. Recuperação

A criança já não está mais gritando, mas isso não significa que o cérebro voltou ao normal.

 Esse é um dos maiores erros das famílias.

Muitos aproveitam esse momento para conversar, corrigir ou dar bronca.

Só que o cérebro ainda está tentando recuperar o equilíbrio.

6. Retorno à linha de base

Agora sim o cérebro voltou a funcionar de forma organizada.

Esse é o momento certo para ensinar novas formas de pedir ajuda, comunicar desconfortos e lidar com situações parecidas no futuro.

Os erros que mais prolongam uma crise

Algumas atitudes, apesar de bem-intencionadas, costumam aumentar a duração da crise:

  • Falar demais quando a criança já está sobrecarregada.
  • Fazer muitas perguntas durante a crise.
  • Exigir que ela “pare” imediatamente.
  • Dar bronca ou aplicar castigos.
  • Tentar ensinar o comportamento correto logo depois que ela para de chorar.
  • Ignorar os primeiros sinais de desconforto.

Antes de controlar o comportamento, compreenda o cérebro

Durante uma crise, regiões responsáveis pela resposta ao estresse, como a amígdala cerebral, ficam muito ativadas, enquanto o córtex pré-frontal, que participa da tomada de decisões, do autocontrole e da regulação emocional, funciona com menos eficiência.

É por isso que insistir, discutir ou tentar convencer a criança costuma piorar a situação.

Quando entendemos como o cérebro funciona, mudamos também a nossa forma de agir.

Em vez de tentar controlar o comportamento a qualquer custo, passamos a oferecer aquilo que aquele cérebro realmente precisa naquele momento: menos estímulos, mais segurança e acolhimento.

Depois que a crise passa e a criança volta ao seu estado de equilíbrio, aí sim é possível ensinar novas habilidades e ajudá-la a lidar melhor com situações semelhantes no futuro.

Com carinho,

Mayra Gaiato – Psicóloga e Neurocientista

Compartilhe:
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Não encontrou o que precisava?

Entre em contato com a gente!