Existe um dado recente sobre a forma como educamos nossas crianças que deveria nos fazer pensar.
Uma pesquisa divulgada em julho pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, ouviu 2.202 brasileiros e mostrou uma contradição importante: 91% consideram a conversa a melhor forma de educar, mas 62% admitem já ter gritado com uma criança, 49% já deram tapas e 27% afirmam ter usado objetos para bater.
Ou seja, boa parte dos adultos sabe que violência não é o caminho que gostaria de escolher. A dificuldade aparece na vida real.
Seu filho grita no supermercado porque você não comprou um brinquedo. Bate no irmão. Joga a comida no chão. Você pede várias vezes para guardar alguma coisa e ele continua brincando.
É nesses momentos, quando o adulto também está cansado ou irritado, que aparece a distância entre saber como gostaria de educar e conseguir fazer isso diante de um conflito.
Bater pode fazer a criança parar. Mas ela aprendeu alguma coisa?
Imagine uma criança pequena que grita porque quer um brinquedo. O pai perde a paciência, dá um tapa e ela para.
O comportamento cessou naquele momento. Mas o que aquela criança aprendeu a fazer quando sentir a mesma frustração novamente?
Ela ainda precisa aprender a esperar, ouvir “não”, comunicar o que deseja e encontrar outras maneiras de expressar aquilo que está sentindo.
É por isso que, na Análise do Comportamento Aplicada, a ABA, procuramos compreender o que acontece antes e depois de um comportamento e qual função ele pode estar cumprindo naquele contexto.
Não para justificar tudo o que a criança faz, mas para conseguir ensinar.
Entender o comportamento não significa permitir tudo
Educação sem violência não significa uma infância sem limites.
Crianças precisam de regras, previsibilidade e consequências adequadas. Precisam aprender que nem sempre terão aquilo que querem, que em alguns momentos será necessário esperar e que determinados comportamentos não são aceitáveis.
Se meu filho bate no irmão para pegar um brinquedo, por exemplo, eu interrompo a agressão e protejo a outra criança. Mas também posso ajudá-lo, de acordo com sua idade e desenvolvimento, a pedir o brinquedo, esperar sua vez ou comunicar que ficou bravo.
O limite continua existindo. O que muda é que, além de mostrar o que ele não pode fazer, ensinamos o que pode fazer no lugar.
É aqui que a ABA Naturalista pode ajudar
Na ABA Naturalista, aproveitamos situações que acontecem na própria rotina para ensinar habilidades que serão úteis naquele contexto e em outros momentos da vida.
Se a criança costuma gritar para pedir alguma coisa, podemos ensiná-la a fazer esse pedido de outra maneira. Se tem dificuldade para esperar, começamos com períodos pequenos e aumentamos gradualmente. Se consegue pedir ajuda em vez de jogar um objeto, valorizamos essa nova forma de comunicação.
E precisamos perceber quando o comportamento adequado aparece.
Às vezes, damos muita atenção quando a criança grita, bate ou desobedece, mas quase nenhuma quando ela espera, pede adequadamente ou consegue lidar melhor com uma frustração.
Um elogio específico — “Gostei de como você esperou sua vez” —, atenção ou a própria consequência natural daquela comunicação podem ajudar a fortalecer o comportamento que estamos ensinando.
Conversar é importante, mas algumas habilidades precisam ser ensinadas
Podemos dizer muitas vezes para uma criança que ela precisa “controlar a raiva”. Mas o que isso significa na prática?
Ela consegue perceber que está ficando irritada? Sabe pedir uma pausa? Consegue dizer “não gostei”? Tem recursos para pedir ajuda antes de bater?
Quando transformamos aquilo que queremos ensinar em comportamentos concretos, fica mais fácil ajudá-la.
Isso é especialmente importante para crianças autistas ou com outras particularidades do neurodesenvolvimento. Antes de interpretar determinado comportamento como provocação ou desobediência, precisamos considerar comunicação, compreensão, questões sensoriais e as habilidades que aquela criança já possui.
Os adultos também precisam de repertório
Os dados da pesquisa trazem outra reflexão importante. Se 91% acreditam que conversar é a melhor forma de educar, mas quase metade admite já ter dado tapas, talvez não estejamos falando apenas sobre conhecimento.
Um adulto exausto, dormindo mal, sobrecarregado e sem rede de apoio pode ter mais dificuldade para regular a própria reação diante de um comportamento desafiador.
Isso não justifica a agressão. Mostra, porém, por que simplesmente dizer “não bata” é insuficiente.
Os adultos também precisam aprender a reconhecer quando estão chegando ao limite. Se você percebe que está perdendo o controle, garanta que a criança esteja segura, diminua a discussão naquele momento e, quando possível, peça que outro adulto assuma a situação por alguns minutos.
Podemos retomar o que aconteceu quando todos estiverem mais regulados.
Educar não deveria significar produzir medo
Muitos adultos que hoje batem nos filhos também foram educados dessa maneira. Romper um padrão aprendido durante a própria infância nem sempre é simples.
Talvez o fato de 91% dos entrevistados já reconhecerem a conversa como a melhor forma de educar mostre que uma mudança cultural está acontecendo. O próximo passo é transformar essa intenção em prática.
Colocar limites sem violência não significa ser permissivo. Significa entender que disciplina também é ensino.
Nosso objetivo não deveria ser criar uma criança que para porque tem medo do adulto.
Deveria ser ajudá-la a construir recursos para saber o que fazer diante da frustração, dos conflitos e dos limites que encontrará ao longo da vida.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista