Por que algumas crianças têm dificuldade para fazer amigos? O que os pais podem fazer sem interferir demais

Um dos sinais do autismo é a dificuldade de interação social, o que afeta o ciclo de amizade das pessoas no espectro autista. Descubra como potencializar essa habilidade e garantir um ciclo de amigos que promove bem-estar.

Ver o filho brincar sozinho no recreio, não ser chamado para festas de aniversário ou dizer que “ninguém quer brincar comigo” costuma apertar o coração de qualquer pai ou mãe.

Nesses momentos, é natural surgir a vontade de resolver o problema imediatamente: conversar com a professora, incentivar amizades ou até pedir que outras crianças incluam seu filho nas brincadeiras.

Embora essa intenção venha do amor, fazer amigos é uma habilidade que também se aprende. E, como qualquer aprendizado, exige tempo, oportunidades e, principalmente, experiências.

Nem toda criança faz amigos da mesma forma

Assim como existem crianças que aprendem a falar mais cedo ou que demoram um pouco mais para andar, também existem aquelas que precisam de mais tempo para construir vínculos.

Algumas são naturalmente mais observadoras. Outras são tímidas. Há crianças que preferem brincar em duplas em vez de grupos grandes. 

E isso, por si só, não representa um problema.

O importante é observar se ela demonstra interesse pelas outras pessoas, se consegue estabelecer algumas interações e se essas dificuldades estão causando sofrimento.

No caso de crianças autistas, por exemplo, os desafios podem estar relacionados à comunicação social, à compreensão das regras implícitas das brincadeiras ou à dificuldade para interpretar expressões faciais, gestos e emoções. Ainda assim, isso não significa que elas não desejam ter amigos.

A amizade também faz parte do desenvolvimento

Quando brinca com outras crianças, seu filho aprende muito mais do que dividir brinquedos.

Ele aprende a esperar a vez, negociar regras, lidar com frustrações, resolver conflitos, perceber diferentes pontos de vista e desenvolver empatia.

Essas experiências estimulam importantes habilidades socioemocionais e funções executivas, fundamentais para a vida escolar e para os relacionamentos futuros.

Por isso, criar oportunidades de convivência é tão importante quanto ensinar conteúdos acadêmicos.

O que os pais podem fazer?

A boa notícia é que não é preciso escolher os amigos do seu filho nem resolver todos os conflitos por ele.

O mais importante é ajudá-lo a desenvolver confiança para construir suas próprias relações.

Algumas atitudes fazem diferença:

  • Valorize os interesses da criança. É muito mais fácil criar vínculos quando existem gostos em comum. Se ela gosta de desenhar, montar blocos ou jogar bola, incentive ambientes onde possa encontrar outras crianças com interesses semelhantes.
  • Ensine habilidades sociais no dia a dia. Cumprimentar alguém, esperar a vez de falar, fazer perguntas e compartilhar brinquedos são comportamentos que podem ser ensinados naturalmente em casa, durante as brincadeiras e as conversas em família.
  • Evite resolver tudo por ela. Sempre que um adulto intervém antes da hora, a criança perde a oportunidade de aprender a lidar com pequenas dificuldades sociais. Esteja por perto, acolha quando necessário, mas permita que ela tente encontrar soluções.
  • Não compare. Cada criança tem seu ritmo. Comparações com irmãos, colegas ou primos costumam aumentar a insegurança e não ajudam no desenvolvimento.

Quando é hora de buscar ajuda?

Se a criança demonstra sofrimento frequente, evita qualquer interação social, nunca consegue estabelecer amizades ou apresenta dificuldades importantes para compreender situações sociais, vale a pena conversar com um profissional especializado em desenvolvimento infantil.

Quanto antes entendermos a origem dessas dificuldades, mais cedo podemos oferecer estratégias que favoreçam relações mais saudáveis.

Mais importante do que ter muitos amigos é sentir que pertence

Existe uma ideia de que crianças felizes são aquelas cercadas por muitos colegas.

Mas isso nem sempre é verdade.

Algumas constroem vínculos profundos com uma ou duas pessoas e estão plenamente satisfeitas.

Mais importante do que a quantidade de amizades é que a criança se sinta aceita, respeitada e segura para ser quem é.

Quando ela cresce sabendo que é valorizada dentro da própria família, desenvolve uma base emocional muito mais sólida para construir relações fora de casa.

Porque amizade não é uma habilidade que nasce pronta.

Ela é construída, pouco a pouco, nas pequenas experiências que a infância oferece todos os dias.

Com carinho,

Mayra Gaiato – Psicóloga e Neurocientista 

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