Toda vez que uma criança autista desaparece, a comoção é imediata. As buscas mobilizam comunidades, a imprensa acompanha cada atualização e milhares de pessoas compartilham informações nas redes sociais.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: por que esse assunto quase sempre ganha espaço apenas depois que uma tragédia acontece?
A fuga de crianças autistas, conhecida internacionalmente como elopement, não é um evento raro. Pelo contrário. É um comportamento relativamente frequente e que representa um dos maiores riscos à segurança dessa população.
Falar sobre isso antes que uma criança desapareça pode salvar vidas.
O que é o elopement?
Elopement é o termo utilizado para descrever situações em que a criança se afasta de forma inesperada de um ambiente seguro ou de quem é responsável por ela, sem compreender os perigos envolvidos.
Nem sempre essa fuga acontece porque a criança quer “escapar”. Muitas vezes ela está seguindo um interesse específico, tentando fugir de um estímulo que causa desconforto, buscando um lugar conhecido ou simplesmente explorando o ambiente sem perceber os riscos.
O maior perigo está na água
Um dos dados mais preocupantes sobre o tema é que cerca de 71% das mortes relacionadas ao elopement em crianças autistas acontecem por afogamento.
Piscinas, lagos, rios e até pequenos reservatórios podem representar um risco enorme, principalmente porque muitas crianças autistas têm fascínio pela água.
Por isso, prevenção precisa ser uma prioridade.
O que realmente ajuda a prevenir?
Não existe uma única estratégia capaz de eliminar o risco, mas a combinação de medidas faz toda a diferença.
Entre as principais recomendações estão:
- supervisão constante, mantendo a criança sempre por perto, ao alcance de um braço;
- instalação de barreiras físicas, como portões trancados, alarmes em portas e cercas ao redor de piscinas;
- aulas de natação adaptadas desde cedo, com profissionais capacitados. Aprender a flutuar pode salvar vidas;
- uso de histórias sociais, imagens e vídeos para ensinar, de forma acessível, situações de risco;
- pulseiras de identificação e dispositivos de localização, especialmente em passeios e ambientes desconhecidos;
- um plano de ação para casos de desaparecimento, com contatos organizados, fotos atualizadas e pessoas próximas orientadas sobre como agir.
A responsabilidade não pode ser apenas da família
É importante dizer algo que muitos pais precisam ouvir: a fuga não acontece por falta de amor ou de cuidado.
Estudos mostram que episódios de elopement são significativamente mais frequentes em crianças autistas do que entre seus irmãos não autistas.
Isso significa que o cuidado precisa ser compartilhado.
Famílias, escolas, profissionais de saúde, espaços públicos e toda a sociedade têm um papel na prevenção.
Precisamos falar antes da tragédia
Quando uma criança desaparece, todos querem entender o que aconteceu.
Mas o momento de ensinar sobre prevenção é muito antes disso.
A imprensa tem um papel fundamental nesse processo. Quanto maior o alcance da informação, maior a chance de que famílias conheçam estratégias simples que podem evitar acidentes e salvar vidas.
Assim como falamos sobre cadeirinhas no carro, vacinação e prevenção de afogamentos, também precisamos transformar o elopement em um tema recorrente de informação e conscientização.
Porque a melhor notícia é aquela em que a tragédia nunca aconteceu.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e Neurocientista