Os resultados do PISA 2025, divulgados pela OCDE no dia 8 de setembro, trazem números que deveriam nos fazer pensar não apenas sobre a educação brasileira, mas sobre a maneira como entendemos a aprendizagem.
No Brasil, 30.140 estudantes de 15 anos, de 1.053 escolas, participaram da avaliação. Apenas 28% alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência em matemática. Em leitura, foram 49% e, em ciências, 48%. Em outras palavras, 72% ficaram abaixo desse patamar em matemática, 51% em leitura e 52% em ciências.
E existe outro dado importante: os resultados brasileiros permaneceram praticamente no mesmo nível de 2022 e próximos daqueles observados desde 2015.
Diante de números assim, é fácil concluir que nossos adolescentes precisam estudar mais.
Mas será que aprender é apenas uma questão de estudar mais?
O cérebro não aprende apenas porque estamos diante de um caderno
Essa é uma conversa que tenho com muitas famílias.
“Mayra, ele estuda, mas parece que não aprende.”
“Ela sabe a matéria em casa, mas chega à prova e esquece tudo.”
“Eu explico várias vezes e parece que não entra.”
Para aprender, nosso cérebro precisa realizar uma série de processos. Precisamos direcionar a atenção, compreender a informação, relacioná-la ao que já sabemos, armazená-la na memória e conseguir recuperá-la quando precisamos.
Funções executivas como memória de trabalho, planejamento, controle inibitório e flexibilidade cognitiva também participam desse processo.
Por isso, uma criança pode passar duas horas sentada diante de um livro e aproveitar muito pouco daquele período.
Mais tempo estudando não significa necessariamente mais tempo aprendendo.
Antes de cobrar mais, precisamos entender onde está a dificuldade
Quando uma criança ou adolescente apresenta um desempenho ruim, uma das respostas mais comuns dos adultos é aumentar a cobrança.
“Você precisa prestar mais atenção.”
“Tem que estudar mais.”
“Você sabe fazer isso.”
“Se continuar assim, vai ficar sem celular.”
Só que nenhuma dessas frases responde à pergunta mais importante: por que essa criança não está conseguindo aprender?
Ela não compreendeu um conceito anterior necessário para entender o conteúdo atual? Está tendo dificuldade para sustentar a atenção? Não consegue organizar os estudos? Dorme pouco? Está ansiosa? Tem dificuldade de leitura? Consegue compreender a matéria, mas não recupera a informação diante da pressão de uma prova?
O comportamento que vemos é “não aprendeu”.
As razões por trás dele podem ser muito diferentes.
E, se não entendemos a dificuldade, corremos o risco de oferecer mais daquilo que já não está funcionando.
Aprender também precisa fazer sentido
Há outro ponto dos resultados do PISA que considero muito interessante.
O nível 2 em matemática não representa apenas conseguir resolver contas no papel.
A OCDE explica que, nesse nível, o estudante já consegue reconhecer como uma situação simples pode ser representada matematicamente, como comparar distâncias entre duas rotas ou converter preços entre moedas.
Isso nos ajuda a compreender uma diferença importante entre memorizar uma resposta e conseguir utilizar um conhecimento.
Uma criança pode saber responder quanto é 25 + 25 em uma atividade escolar.
Mas consegue perceber quanto falta se tem R$ 25 e quer comprar algo que custa R$ 50? Consegue comparar dois preços? Dividir uma quantidade entre pessoas?
Quando o conhecimento começa a aparecer em diferentes situações, ele deixa de ser apenas uma resposta aprendida naquele contexto e passa a se tornar um recurso para a vida.
Na Análise do Comportamento, chamamos esse processo de generalização.
É também por isso que gosto tanto da ABA Naturalista: aproveitamos situações reais para criar oportunidades de aprendizagem.
Cozinhar pode envolver quantidades.
Fazer uma compra pode trabalhar matemática.
Ler uma placa na rua envolve leitura. Organizar uma mochila exige planejamento.
Não precisamos transformar cada momento da infância em uma aula. Mas podemos permitir que aquilo que a criança aprende encontre espaço na vida real.
A nota não conta toda a história
Os resultados do PISA são importantes porque nos ajudam a enxergar um problema coletivo. Mas precisamos tomar cuidado para que números como esses não se transformem em mais uma maneira de responsabilizar individualmente crianças e adolescentes.
Quando uma parcela tão grande dos estudantes de um país não alcança um nível básico de proficiência, não podemos concluir simplesmente que milhões de jovens não se esforçaram o suficiente.
Existem questões educacionais, sociais e econômicas envolvidas. O próprio PISA mostra que o contexto socioeconômico continua relacionado ao desempenho dos estudantes brasileiros.
E, dentro de cada casa, existe uma criança com uma história particular.
Algumas precisarão de mais tempo. Outras, de uma maneira diferente de explicar. Algumas podem apresentar dificuldades específicas de aprendizagem ou condições do neurodesenvolvimento. Outras talvez estejam enfrentando ansiedade, problemas de sono ou situações emocionais que também interferem na capacidade de aprender.
Por isso, antes de perguntar apenas “qual foi a nota?”, talvez devêssemos começar a perguntar:
“O que está dificultando a aprendizagem?”
O que os pais podem fazer?
Em casa, não precisamos reproduzir a escola.
Podemos observar como aquela criança aprende melhor, ajudá-la a organizar tarefas grandes em etapas menores, preservar o sono, criar momentos sem tantas distrações, valorizar o esforço e oferecer oportunidades para usar o conhecimento em situações cotidianas.
Também é importante conversar com a escola quando uma dificuldade persiste. E, se existe uma diferença significativa entre aquilo que seria esperado para a idade e o que a criança consegue realizar, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo.
Principalmente, precisamos evitar transformar desempenho escolar em medida de inteligência ou de valor pessoal.
Uma nota mostra como um estudante respondeu a determinadas tarefas em determinado momento.
Ela não resume tudo o que aquela criança sabe, pode aprender ou poderá construir ao longo da vida.
Os resultados do PISA 2025 precisam nos preocupar.
Mas talvez também possam nos ajudar a fazer uma pergunta melhor.
Em vez de apenas “por que nossos estudantes não estão aprendendo?”, precisamos perguntar:
“Estamos conseguindo ensinar de uma maneira que permita que eles realmente aprendam?”
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista