Último trimestre escolar: quando o cansaço começa a pesar nas crianças?

Provas, trabalhos, atividades acumuladas e meses de rotina podem transformar a reta final do ano em um período de sobrecarga. Entender os sinais e reorganizar as expectativas ajuda a criança a chegar ao fim do calendário escolar sem transformar o desempenho em sofrimento.

O último trimestre do ano letivo costuma chegar acompanhado de uma frase muito conhecida dentro de casa: “Está acabando, falta só mais um pouco”.

Para os adultos, pode parecer um incentivo. Para algumas crianças, porém, esse “só mais um pouco” acontece justamente quando elas já estão cansadas.

Foram meses acordando cedo, cumprindo horários, permanecendo várias horas na escola, fazendo tarefas, lidando com provas, relações sociais, atividades extracurriculares e expectativas. Na reta final, muitas escolas ainda concentram avaliações, trabalhos, recuperações e fechamento de notas.

Por isso, é comum percebermos crianças mais irritadas, desmotivadas ou com maior dificuldade para levantar de manhã, estudar e manter a concentração.

Nem sempre isso significa preguiça ou falta de interesse.

Às vezes, é cansaço.

O cérebro cansado não aprende da mesma maneira

Aprender exige muito mais do cérebro do que simplesmente “prestar atenção”.

A criança precisa sustentar a atenção, selecionar informações relevantes, acessar aquilo que já aprendeu, memorizar novos conteúdos, controlar impulsos, organizar etapas de uma tarefa e lidar com frustrações quando alguma coisa não sai como esperado.

Muitas dessas habilidades estão relacionadas às chamadas funções executivas, fundamentais para planejamento, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e controle do comportamento.

Quando sono, estresse e cansaço começam a se acumular, manter esse funcionamento pode ficar mais difícil.

Por isso, aumentar indiscriminadamente as horas de estudo nem sempre significa aumentar a aprendizagem. Uma criança exausta pode passar uma hora diante do caderno e aproveitar muito menos aquele período do que aproveitaria em um tempo menor, com pausas e descanso adequados.

Mais tempo estudando não é necessariamente mais tempo aprendendo.

A sobrecarga nem sempre aparece como “estou cansado”

Esse é um ponto muito importante.

Crianças nem sempre conseguem identificar e comunicar o próprio esgotamento. O cansaço pode aparecer no comportamento.

Uma criança que antes fazia a tarefa sem grandes dificuldades começa a chorar diante do dever. Outra fica irritada por qualquer coisa. Algumas procrastinam, reclamam de dores de cabeça ou de barriga, têm dificuldade para dormir, perdem o interesse por atividades de que gostavam ou começam a dizer repetidamente que não querem ir à escola.

Também podemos perceber maior dificuldade de concentração, esquecimentos, queda no rendimento ou uma reação emocional muito intensa diante de pequenos erros.

Nenhum desses sinais isoladamente significa que existe um problema emocional ou um transtorno. O mais importante é observar mudanças em relação ao comportamento habitual da criança, sua intensidade e duração.

Em vez de perguntar imediatamente “por que você não está se esforçando?”, talvez seja mais útil perguntar: “O que está ficando difícil para você neste momento?”

Cuidado para não transformar a casa em uma extensão da escola

Quando as notas começam a preocupar, existe uma tendência compreensível dos pais de aumentar a cobrança.

Mais exercícios. Mais revisão. Mais aulas. Menos brincadeira. Menos esporte. Menos tempo livre.

Só que podemos acabar retirando justamente aquilo que ajudaria aquela criança a se recuperar.

Brincar não é tempo perdido. Atividade física não é inimiga dos estudos. Dormir não é deixar de estudar.

Sono, movimento, lazer e vínculo também fazem parte das condições necessárias para aprender.

Se uma criança chega da escola cansada, talvez ela precise comer, conversar, brincar, caminhar, praticar um esporte ou simplesmente ficar um pouco sem fazer nada antes de sentar novamente diante dos livros.

O cérebro também precisa alternar períodos de esforço e recuperação.

Como organizar os estudos sem aumentar ainda mais a pressão?

No último trimestre, eu gosto muito mais da ideia de organização do que de intensificação.

Em vez de simplesmente dizer “você precisa estudar mais”, os pais podem ajudar a criança a enxergar o que precisa ser feito.

Um calendário visual pode funcionar muito bem. Colocar datas de provas, trabalhos e entregas em um lugar visível permite distribuir as tarefas e evita aquela sensação de que tudo precisa ser resolvido ao mesmo tempo.

Também podemos dividir uma atividade grande em etapas menores.

“Estudar Ciências” pode parecer enorme para uma criança. “Hoje vamos revisar duas páginas e responder três questões” é muito mais concreto.

Pausas também são importantes. Dependendo da idade e do perfil da criança, períodos menores de concentração intercalados com pequenos intervalos podem funcionar melhor do que longas sessões de estudo.

E vale observar o ambiente: celular recebendo notificações, televisão ligada e pessoas conversando ao redor disputam atenção com aquilo que precisa ser aprendido.

Não precisamos criar silêncio absoluto, mas podemos facilitar.

E quando a criança tem autismo, TDAH ou outras particularidades do neurodesenvolvimento?

Aqui precisamos ter ainda mais cuidado com comparações.

Para algumas crianças autistas, por exemplo, o desgaste não vem apenas das demandas acadêmicas. 

Existe o esforço de lidar diariamente com barulho, mudanças de sala, interação social, regras, imprevisibilidade e diferentes estímulos sensoriais.

Uma criança pode chegar em casa depois de aparentemente ter “ficado bem o dia inteiro” e desorganizar justamente no ambiente em que se sente segura.

No TDAH, dificuldades relacionadas a planejamento, organização, memória de trabalho e gerenciamento do tempo podem fazer com que o acúmulo de provas e trabalhos do fim do ano se torne especialmente desafiador.

Nesses casos, dizer apenas “você precisa se organizar” não ensina organização.

Podemos tornar o tempo mais visual, quebrar tarefas em etapas, oferecer lembretes, antecipar mudanças, estabelecer prioridades e diminuir gradualmente a ajuda conforme a criança desenvolve esses recursos.

Dar suporte não significa fazer pela criança. Significa oferecer as condições necessárias para que ela consiga fazer cada vez mais.

Nota também não pode virar medida de valor pessoal

Existe outro cuidado importante nessa época.

Quando toda conversa dentro de casa passa a girar em torno de prova, média e recuperação, algumas crianças começam a interpretar desempenho acadêmico como uma avaliação de quem elas são.

“Fui mal na prova” pode rapidamente se transformar em “eu sou ruim nisso”, “eu sou burro” ou “eu decepcionei meus pais”.

Precisamos separar essas coisas.

Uma nota nos mostra o desempenho da criança em determinada avaliação, naquele momento e sob determinadas condições. 

Ela pode nos indicar conteúdos que precisam ser retomados, mas não mede inteligência, caráter, potencial ou valor pessoal.

Podemos cobrar responsabilidade sem transformar amor, aprovação e pertencimento em recompensa por desempenho.

Algumas coisas precisam continuar existindo até dezembro

Quando a agenda aperta, geralmente começamos cortando aquilo que parece menos urgente.

Mas eu preservaria algumas coisas sempre que possível: sono adequado, atividade física, brincadeira, alimentação, convivência familiar e algum tempo verdadeiramente livre.

Talvez seja jogar bola, andar de bicicleta, pintar, brincar com o cachorro, fazer uma caminhada com os pais, ouvir música ou simplesmente ter uma tarde sem uma sequência de compromissos.

Isso não significa abandonar responsabilidades escolares. Significa compreender que uma criança descansada tem melhores condições de lidar com elas.

E também podemos diminuir exigências que não são essenciais naquele momento. Nem toda atividade precisa continuar com a mesma intensidade durante uma semana cheia de provas.

Priorizar também é uma habilidade.

O objetivo não deveria ser apenas chegar ao fim do ano

É claro que queremos que nossos filhos aprendam, desenvolvam responsabilidade e consigam enfrentar desafios. 

Não precisamos retirar toda dificuldade do caminho.

Mas existe uma diferença entre ajudar uma criança a enfrentar um desafio e exigir que ela continue funcionando da mesma maneira quando está claramente sobrecarregada.

Se as mudanças de comportamento forem intensas, persistentes, houver sofrimento importante, alterações significativas de sono ou alimentação, ansiedade frequente, recusa escolar ou prejuízo na rotina, vale conversar com a escola e buscar avaliação profissional.

Para muitas famílias, porém, pequenos ajustes já podem fazer diferença: organizar as demandas, reduzir excessos, preservar o sono, incluir pausas, manter atividades prazerosas e, principalmente, ouvir a criança.

O último trimestre não precisa ser uma corrida em que todos chegam exaustos à linha de chegada.

Ensinar uma criança a reconhecer seus limites, organizar prioridades, pedir ajuda e entender que descanso também faz parte do aprendizado talvez seja uma lição tão importante quanto qualquer conteúdo que ainda esteja faltando no calendário escolar.

Com carinho,
Mayra Gaiato-  Psicóloga e neurocientista

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