A primavera está chegando: como usar a mudança de estação para estimular o desenvolvimento da criança

Trocar as roupas do armário, observar as árvores, experimentar alimentos da estação e perceber as mudanças no clima podem se transformar em oportunidades naturais de aprendizagem, comunicação e autonomia.

A primavera está chegando e, aos poucos, algumas mudanças começam a aparecer ao nosso redor.

Os dias ficam mais longos, as temperaturas começam a subir, algumas árvores florescem e as roupas mais pesadas vão deixando de ser tão necessárias. Até aquilo que colocamos no prato pode mudar conforme frutas, verduras e legumes entram em diferentes períodos de safra.

Para nós, adultos, muitas dessas transformações passam quase despercebidas. Guardamos um casaco, abrimos uma janela porque está mais quente ou encontramos uma fruta diferente no mercado e seguimos o dia.

Para uma criança, porém, essas pequenas mudanças podem se transformar em oportunidades muito ricas de aprendizagem.

E não precisamos preparar uma aula sobre a primavera para isso.

Aprender também acontece enquanto a vida acontece

Quando falamos em desenvolvimento infantil, existe uma tendência de pensar que estimular uma criança exige sempre uma atividade planejada, um brinquedo específico ou um momento reservado para ensinar.

Mas boa parte da aprendizagem pode acontecer justamente nas situações comuns do cotidiano.

Essa é uma das coisas de que mais gosto quando falamos em ABA Naturalista: podemos aproveitar interesses, acontecimentos e situações reais para ensinar habilidades que façam sentido para aquela criança.

A chegada de uma nova estação oferece muitas dessas oportunidades.

Uma delas pode começar dentro do próprio armário.

“Está ficando mais quente. Será que ainda precisamos desse casaco?”

“Qual roupa combina melhor com um dia de calor?”

“Vamos separar o que vamos guardar?”

Uma tarefa simples como reorganizar as roupas permite trabalhar conceitos como frio e calor, igual e diferente, separar, escolher e organizar, além de envolver a criança em uma atividade funcional da casa.

Dependendo da idade, ela pode ajudar a dobrar as próprias roupas, decidir onde guardá-las ou escolher o que vai vestir.

Não é apenas aprender que chegou a primavera. É perceber o que essa mudança significa na própria rotina.

Olhar para a rua também pode ensinar

Outro exercício muito simples é chamar a atenção da criança para aquilo que está mudando ao redor dela.

Uma árvore que começou a florescer. 

Uma planta que ganhou folhas novas. 

Um dia mais claro. 

Um inseto que apareceu no jardim.

Em vez de apenas dizer “olha que flor bonita”, podemos acompanhar o interesse da criança.

Que cor ela tem? Tem cheiro? Existem outras iguais por perto?

Como aquela árvore estava algumas semanas atrás?

Não precisamos transformar o passeio em uma sequência de perguntas. O objetivo é compartilhar a descoberta.

Quando a criança percebe, compara, nomeia e comenta aquilo que está vendo, estamos criando oportunidades para ampliar linguagem, atenção compartilhada, curiosidade e repertório sobre o mundo.

A estação também pode chegar à mesa

O supermercado, a feira e a própria refeição são outros espaços interessantes.

Podemos mostrar que alguns alimentos aparecem com maior disponibilidade em determinadas épocas do ano e convidar a criança a observar cores, cheiros, texturas e sabores.

“Olha, essa fruta está aparecendo bastante agora.”

“Você quer escolher uma para experimentarmos?”

Para uma criança que apresenta seletividade alimentar, é importante lembrar que explorar não significa obrigatoriamente comer. Aproximar-se de um alimento novo pode começar olhando, tocando, sentindo o cheiro, ajudando a lavar ou participando do preparo, sempre respeitando os limites e o perfil sensorial da criança.

A aprendizagem pode acontecer muito antes da primeira mordida.

Mudanças também ensinam flexibilidade

Existe ainda um aspecto que considero especialmente importante.

As estações nos mostram, de maneira muito concreta, que a vida muda.

Muda a temperatura, muda a roupa, muda o horário em que escurece, mudam alguns alimentos e até certos programas da família.

Para algumas crianças, especialmente crianças autistas que apresentam maior necessidade de previsibilidade, essas alterações podem exigir preparação.

Podemos antecipar: “Hoje vamos sair sem aquele casaco pesado porque está mais quente”. Podemos mostrar a previsão do tempo, oferecer escolhas entre duas roupas adequadas ou explicar que determinada atividade acontecerá de outra maneira.

Assim, uma mudança cotidiana também pode se tornar uma oportunidade para desenvolver flexibilidade e adaptação, sem exigir que a criança simplesmente aceite uma novidade sem apoio.

Não precisamos transformar tudo em terapia

Talvez essa seja a parte mais importante.

Pais não precisam caminhar pela rua pensando em quais habilidades estão treinando. Também não precisam transformar o almoço, o passeio ou a organização do armário em sessões terapêuticas.

Crianças precisam brincar, observar, perguntar, experimentar e participar da vida familiar.

O que podemos fazer é estar um pouco mais atentos às oportunidades que já existem.

A primavera pode estar na flor que nasceu no caminho da escola, na camiseta que voltou para a primeira gaveta, na fruta escolhida na feira ou na pergunta da criança sobre por que agora está demorando mais para escurecer.

Desenvolvimento também acontece assim: quando aquilo que a criança aprende começa a ajudá-la a compreender, participar e ganhar autonomia no mundo em que vive.

Talvez a chegada de uma nova estação seja um bom convite para nós, adultos, também voltarmos a perceber essas pequenas mudanças.

Porque, para ensinar uma criança sobre o mundo, muitas vezes não precisamos criar uma experiência.

Precisamos apenas ajudá-la a perceber a experiência que já está acontecendo ao redor dela.

Com carinho,
Mayra Gaiato –  Psicóloga e neurocientista

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