Seu filho está sendo excluído na escola? Os sinais que os pais nem sempre percebem

Isolamento, mudanças de comportamento e resistência para ir à escola podem revelar situações de exclusão que também continuam nos grupos de mensagens e no ambiente digital. Saiba como identificar os sinais e ajudar seu filho.

“Mayra, meu filho sempre gostou da escola, mas agora inventa desculpas para não ir. Quando pergunto o que aconteceu, ele diz que está tudo bem.”

Essa é uma situação que merece atenção.

Nem sempre uma criança que está sendo excluída consegue contar o que está acontecendo. Às vezes, ela tem vergonha, medo de piorar a situação ou simplesmente não sabe explicar por que os colegas deixaram de chamá-la para brincar, por que ninguém quer fazer dupla com ela ou por que começou a ser alvo de comentários desagradáveis.

E existe algo que preocupa ainda mais: hoje, muitas dessas situações não terminam quando a criança sai da escola.

Elas podem continuar nos grupos de mensagens, nos jogos on-line e nas redes sociais.

Nem toda exclusão acontece de maneira evidente

Quando pensamos em bullying, geralmente imaginamos apelidos ofensivos, ameaças ou agressões. Mas existem formas de exclusão mais difíceis de perceber.

Uma criança pode ser constantemente deixada de fora das brincadeiras, ignorada pelos colegas, ridicularizada quando tenta participar de uma conversa ou excluída de grupos digitais.

Nem todo conflito entre crianças é bullying. Para caracterizá-lo, é importante observar elementos como intencionalidade, repetição e desequilíbrio de poder. Mas isso não significa que uma situação isolada de humilhação ou exclusão deva ser ignorada.

Para uma criança que ainda está desenvolvendo sua identidade, suas habilidades sociais e a maneira de compreender as relações, sentir que não pertence a determinado grupo pode provocar sofrimento importante.

E esse sofrimento nem sempre aparece em palavras.

Pode surgir como irritabilidade, alterações no sono, dores de barriga antes da escola, queda no rendimento, isolamento ou perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas.

Esses sinais não significam necessariamente que existe bullying. Mas indicam que precisamos observar o que mudou e investigar o contexto.

E quando a exclusão continua no celular?

Hoje, as relações entre crianças e adolescentes também acontecem no ambiente digital.

Um grupo criado para conversar sobre a escola pode se transformar em espaço de ofensas. Uma fotografia pode circular acompanhada de comentários humilhantes. Uma criança pode descobrir que todos os colegas participam de determinado grupo, menos ela.

Quando existem ataques, humilhações ou perseguições por meios digitais, podemos estar diante de situações de cyberbullying.

E há uma diferença importante: no ambiente digital, uma mensagem pode ser compartilhada, registrada e visualizada por muitas pessoas. O constrangimento pode continuar mesmo quando a criança está em casa, um lugar onde deveria se sentir protegida.

Por isso, segurança digital não é apenas ensinar a não conversar com desconhecidos. Também é conversar sobre respeito, privacidade, compartilhamento de imagens, exposição e responsabilidade nas relações on-line.

Os pais precisam conhecer os ambientes digitais frequentados pelos filhos, estabelecer combinados adequados à idade e manter um canal de comunicação aberto.

Mas esse acompanhamento não pode acontecer apenas quando surge um problema.

Como conversar com seu filho sem fazer com que ele se feche?

Se você percebe mudanças no comportamento, evite começar com uma sequência de perguntas ou acusações.

Em vez de dizer “Quem está fazendo isso com você?” ou “Por que você não se defendeu?”, tente abrir espaço para a conversa.

Você pode perguntar: “Como estão as coisas com seus amigos?”, “Com quem você tem brincado no recreio?” ou “Aconteceu alguma coisa na escola que deixou você triste ou desconfortável?”.

E, se a criança contar uma situação de exclusão, escute antes de tentar resolver.

Frases como “não liga para isso”, “é só uma brincadeira” ou “você precisa aprender a se defender” podem fazer com que ela se sinta ainda mais sozinha.

É importante que ela saiba que fez bem em contar e que não precisa enfrentar a situação sem ajuda.

Também não devemos colocar sobre a criança toda a responsabilidade de conseguir ser aceita pelos colegas.

A inclusão não depende apenas de ensinar uma criança a se adaptar. Depende de construir ambientes em que as diferenças sejam respeitadas.

Isso é especialmente importante para crianças autistas e outras crianças neurodivergentes, que podem enfrentar dificuldades de comunicação, interação ou compreensão de determinadas situações sociais.

Muitas vezes, elas precisam de apoio para participar das atividades, compreender o que está acontecendo e desenvolver relações. Mas também precisam encontrar uma escola preparada para acolher suas características.

O que fazer quando a escola precisa intervir?

Se houver suspeita de exclusão recorrente, converse com a escola e procure entender como a criança participa das atividades, dos trabalhos em grupo e dos momentos de recreação.

Relate situações concretas, peça que a equipe observe as interações e combine formas de acompanhamento.

Quando o problema envolve mensagens ou publicações, preserve os registros relevantes e evite expor a criança ainda mais. Dependendo da gravidade, pode ser necessário comunicar a plataforma e buscar apoio dos órgãos competentes.

O objetivo não é apenas interromper uma agressão, mas ajudar a construir relações mais seguras e respeitosas.

Se o sofrimento estiver afetando o sono, a alimentação, a aprendizagem, as relações ou a saúde emocional, também é importante procurar avaliação profissional.

E lembre-se: nenhuma criança deveria precisar mudar quem é para merecer respeito.

Às vezes, estamos tão preocupados em perguntar se nossos filhos fizeram a lição, estudaram para a prova ou tiraram boas notas que esquecemos de perguntar algo igualmente importante: eles estão se sentindo bem no lugar onde passam boa parte do dia?

A escola deve ser um espaço de aprendizagem, mas também de convivência, segurança e pertencimento.

E talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer aos nossos filhos não seja apenas “o que você aprendeu hoje?”, mas também:

“Como você se sentiu na escola hoje?”

Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista

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