O que acontece no cérebro quando aprendemos dois idiomas desde cedo

Aprender duas línguas na infância não confunde o cérebro nem prejudica, por si só, o desenvolvimento da língua materna. Entenda o que a neurociência já sabe sobre bilinguismo, linguagem e plasticidade cerebral.

Uma dúvida que recebo de muitas famílias é se apresentar uma segunda língua muito cedo pode atrapalhar o desenvolvimento da criança.

“Ela ainda nem fala português direito. Será que já devo colocar inglês?”

“Não vai confundir?”

“E se começar a misturar as palavras?”

São preocupações compreensíveis, principalmente quando estamos falando dos primeiros anos de vida, uma fase em que a linguagem está se desenvolvendo rapidamente.

Mas existe algo fascinante no cérebro infantil: ele é perfeitamente capaz de aprender a lidar com mais de um sistema linguístico.

Isso não significa que toda criança precise aprender inglês aos dois anos nem que o bilinguismo vá torná-la mais inteligente. Significa apenas que não precisamos ter medo de apresentar uma segunda língua cedo quando isso fizer sentido para aquela família.

Duas línguas não “confundem” o cérebro

Antes mesmo de falar as primeiras palavras, os bebês já estão aprendendo muito sobre a língua que escutam.

Eles percebem sons, ritmos, entonações e padrões. Quando crescem expostos regularmente a duas línguas, começam também a perceber características de cada uma delas.

Por isso, uma criança pode aprender algumas palavras primeiro em português e outras em inglês. Pode usar uma palavra de uma língua dentro de uma frase da outra ou escolher determinado idioma dependendo de com quem está conversando.

Essa mistura pode assustar os adultos, mas não significa necessariamente confusão.

Faz parte do desenvolvimento de muitas crianças bilíngues.

E o bilinguismo atrasa a fala?

Essa pergunta merece atenção porque existe muita informação equivocada circulando sobre o assunto.

O bilinguismo, por si só, não causa transtorno ou atraso de linguagem.

O que acontece é que o vocabulário da criança pode estar distribuído entre duas línguas. Imagine uma criança que conhece “cachorro” em português, mas aprendeu “apple” em inglês. Se avaliarmos apenas um idioma, podemos ter uma fotografia incompleta do repertório que ela realmente possui.

Por isso, quando existe suspeita de atraso de linguagem, precisamos considerar toda a história linguística daquela criança.

E, se houver sinais de dificuldade no desenvolvimento, não devemos simplesmente atribuí-los ao fato de ela ouvir duas línguas. É importante procurar uma avaliação adequada.

O que acontece no cérebro bilíngue?

A infância é marcada por intensa plasticidade cerebral.

Enquanto a criança cresce, o cérebro está se formando, fortalecendo e reorganizando redes relacionadas à linguagem, percepção, memória e muitas outras habilidades.

Pesquisas com neuroimagem vêm mostrando diferenças na organização e na integração de algumas redes cerebrais de pessoas bilíngues, especialmente quando a exposição a outro idioma acontece cedo.

Isso não significa que exista uma idade mágica depois da qual seja impossível aprender.

Podemos aprender outro idioma na adolescência, na vida adulta e até na velhice. Nosso cérebro continua sendo capaz de aprender e se modificar ao longo da vida.

A diferença é que, durante a infância, estamos falando de um cérebro que ainda está construindo muitos dos próprios circuitos envolvidos na linguagem.

Criança bilíngue fica mais inteligente?

Eu gosto de responder essa pergunta com bastante cuidado.

Durante algum tempo, tornou-se popular a ideia de que crianças bilíngues necessariamente teriam vantagens em atenção, memória e controle dos impulsos.

Existem pesquisas que encontraram diferenças em algumas dessas funções, mas os resultados científicos não são uniformes o suficiente para transformarmos isso numa promessa.

Não precisamos vender o bilinguismo como uma fórmula para criar crianças mais inteligentes.

Seu benefício já é enorme: poder se comunicar, aprender e construir relações em mais de uma língua.

Como apresentar outro idioma de forma natural?

Não precisamos transformar a infância numa aula permanente.

A aprendizagem pode acontecer por meio de músicas, histórias, desenhos, brincadeiras, livros, conversas e convivência com pessoas que utilizam aquele idioma.

E existe algo que considero ainda mais poderoso: dar função à língua.

Uma coisa é decorar nomes de alimentos em inglês. Outra é perceber que aquele idioma permite conversar com uma criança durante uma viagem, entender uma história, pedir alguma coisa, participar de uma brincadeira ou se comunicar com alguém da família.

Quando a língua entra na vida, a aprendizagem ganha significado.

E crianças autistas podem ser bilíngues?

Essa dúvida merece um cuidado especial.

Durante muito tempo, algumas famílias de crianças autistas foram orientadas a abandonar um dos idiomas de casa por receio de que duas línguas aumentassem as dificuldades de comunicação.

Hoje sabemos que não existe evidência para uma recomendação genérica de que crianças autistas devam crescer obrigatoriamente com apenas uma língua.

A decisão precisa considerar aquela criança, suas habilidades de comunicação, necessidades de suporte e, principalmente, o contexto familiar.

Isso é particularmente importante em famílias nas quais os pais têm línguas maternas diferentes ou vivem em outro país. Retirar artificialmente uma língua pode significar também reduzir oportunidades de comunicação com avós, familiares e outras pessoas importantes.

Quando existe atraso ou dificuldade de linguagem, a orientação deve ser individualizada e, quando necessário, acompanhada por profissionais capacitados.

Mais importante do que começar cedo é fazer sentido

Nem toda família precisa colocar o filho em uma escola bilíngue. Nem toda criança precisa falar três idiomas. E aprender inglês aos três anos não é um certificado de sucesso futuro.

Precisamos tomar cuidado para não transformar mais uma oportunidade de aprendizagem em cobrança.

A infância continua precisando de brincadeira, descanso, interação e vínculo.

Se existe a possibilidade de proporcionar um segundo idioma, ótimo. Faça com constância, naturalidade e significado. Se a família viaja, permita que a criança experimente utilizar aquilo que aprendeu. Se alguém da família fala outra língua, valorize essa convivência. Se o aprendizado acontece na escola, procure trazer pequenas experiências para o cotidiano.

Porque talvez uma das coisas mais interessantes de aprender outra língua não esteja apenas no cérebro.

Está naquilo que ela permite fazer com ela.

Uma nova língua não oferece somente novas palavras. Ela pode oferecer novas pessoas, novas experiências e novas maneiras de compreender o mundo.

Com carinho,

Mayra Gaiato –  Psicóloga e neurocientistaUma dúvida que recebo de muitas famílias é se apresentar uma segunda língua muito cedo pode atrapalhar o desenvolvimento da criança.

“Ela ainda nem fala português direito. Será que já devo colocar inglês?”

“Não vai confundir?”

“E se começar a misturar as palavras?”

São preocupações compreensíveis, principalmente quando estamos falando dos primeiros anos de vida, uma fase em que a linguagem está se desenvolvendo rapidamente.

Mas existe algo fascinante no cérebro infantil: ele é perfeitamente capaz de aprender a lidar com mais de um sistema linguístico.

Isso não significa que toda criança precise aprender inglês aos dois anos nem que o bilinguismo vá torná-la mais inteligente. Significa apenas que não precisamos ter medo de apresentar uma segunda língua cedo quando isso fizer sentido para aquela família.

Duas línguas não “confundem” o cérebro

Antes mesmo de falar as primeiras palavras, os bebês já estão aprendendo muito sobre a língua que escutam.

Eles percebem sons, ritmos, entonações e padrões. Quando crescem expostos regularmente a duas línguas, começam também a perceber características de cada uma delas.

Por isso, uma criança pode aprender algumas palavras primeiro em português e outras em inglês. Pode usar uma palavra de uma língua dentro de uma frase da outra ou escolher determinado idioma dependendo de com quem está conversando.

Essa mistura pode assustar os adultos, mas não significa necessariamente confusão.

Faz parte do desenvolvimento de muitas crianças bilíngues.

E o bilinguismo atrasa a fala?

Essa pergunta merece atenção porque existe muita informação equivocada circulando sobre o assunto.

O bilinguismo, por si só, não causa transtorno ou atraso de linguagem.

O que acontece é que o vocabulário da criança pode estar distribuído entre duas línguas. Imagine uma criança que conhece “cachorro” em português, mas aprendeu “apple” em inglês. Se avaliarmos apenas um idioma, podemos ter uma fotografia incompleta do repertório que ela realmente possui.

Por isso, quando existe suspeita de atraso de linguagem, precisamos considerar toda a história linguística daquela criança.

E, se houver sinais de dificuldade no desenvolvimento, não devemos simplesmente atribuí-los ao fato de ela ouvir duas línguas. É importante procurar uma avaliação adequada.

O que acontece no cérebro bilíngue?

A infância é marcada por intensa plasticidade cerebral.

Enquanto a criança cresce, o cérebro está se formando, fortalecendo e reorganizando redes relacionadas à linguagem, percepção, memória e muitas outras habilidades.

Pesquisas com neuroimagem vêm mostrando diferenças na organização e na integração de algumas redes cerebrais de pessoas bilíngues, especialmente quando a exposição a outro idioma acontece cedo.

Isso não significa que exista uma idade mágica depois da qual seja impossível aprender.

Podemos aprender outro idioma na adolescência, na vida adulta e até na velhice. Nosso cérebro continua sendo capaz de aprender e se modificar ao longo da vida.

A diferença é que, durante a infância, estamos falando de um cérebro que ainda está construindo muitos dos próprios circuitos envolvidos na linguagem.

Criança bilíngue fica mais inteligente?

Eu gosto de responder essa pergunta com bastante cuidado.

Durante algum tempo, tornou-se popular a ideia de que crianças bilíngues necessariamente teriam vantagens em atenção, memória e controle dos impulsos.

Existem pesquisas que encontraram diferenças em algumas dessas funções, mas os resultados científicos não são uniformes o suficiente para transformarmos isso numa promessa.

Não precisamos vender o bilinguismo como uma fórmula para criar crianças mais inteligentes.

Seu benefício já é enorme: poder se comunicar, aprender e construir relações em mais de uma língua.

Como apresentar outro idioma de forma natural?

Não precisamos transformar a infância numa aula permanente.

A aprendizagem pode acontecer por meio de músicas, histórias, desenhos, brincadeiras, livros, conversas e convivência com pessoas que utilizam aquele idioma.

E existe algo que considero ainda mais poderoso: dar função à língua.

Uma coisa é decorar nomes de alimentos em inglês. Outra é perceber que aquele idioma permite conversar com uma criança durante uma viagem, entender uma história, pedir alguma coisa, participar de uma brincadeira ou se comunicar com alguém da família.

Quando a língua entra na vida, a aprendizagem ganha significado.

E crianças autistas podem ser bilíngues?

Essa dúvida merece um cuidado especial.

Durante muito tempo, algumas famílias de crianças autistas foram orientadas a abandonar um dos idiomas de casa por receio de que duas línguas aumentassem as dificuldades de comunicação.

Hoje sabemos que não existe evidência para uma recomendação genérica de que crianças autistas devam crescer obrigatoriamente com apenas uma língua.

A decisão precisa considerar aquela criança, suas habilidades de comunicação, necessidades de suporte e, principalmente, o contexto familiar.

Isso é particularmente importante em famílias nas quais os pais têm línguas maternas diferentes ou vivem em outro país. Retirar artificialmente uma língua pode significar também reduzir oportunidades de comunicação com avós, familiares e outras pessoas importantes.

Quando existe atraso ou dificuldade de linguagem, a orientação deve ser individualizada e, quando necessário, acompanhada por profissionais capacitados.

Mais importante do que começar cedo é fazer sentido

Nem toda família precisa colocar o filho em uma escola bilíngue. Nem toda criança precisa falar três idiomas. E aprender inglês aos três anos não é um certificado de sucesso futuro.

Precisamos tomar cuidado para não transformar mais uma oportunidade de aprendizagem em cobrança.

A infância continua precisando de brincadeira, descanso, interação e vínculo.

Se existe a possibilidade de proporcionar um segundo idioma, ótimo. Faça com constância, naturalidade e significado. Se a família viaja, permita que a criança experimente utilizar aquilo que aprendeu. Se alguém da família fala outra língua, valorize essa convivência. Se o aprendizado acontece na escola, procure trazer pequenas experiências para o cotidiano.

Porque talvez uma das coisas mais interessantes de aprender outra língua não esteja apenas no cérebro.

Está naquilo que ela permite fazer com ela.

Uma nova língua não oferece somente novas palavras. Ela pode oferecer novas pessoas, novas experiências e novas maneiras de compreender o mundo.

Com carinho,

Mayra Gaiato –  Psicóloga e neurocientista

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