Redes sociais e adolescentes: não podemos entregar o celular e esperar que eles aprendam sozinhos

Com 92% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos conectados à internet, discutir limites deixou de ser apenas uma questão de tempo de tela. Precisamos falar sobre cérebro, autorregulação, conteúdo, vínculo e responsabilidade.

Recentemente, participei de uma matéria publicada pelo portal Terra sobre uma discussão que ganhou força com o julgamento da Meta nos Estados Unidos e as medidas adotadas no Brasil envolvendo plataformas como o Discord: afinal, quem deve responder pelos efeitos das redes sociais sobre crianças e adolescentes?

É uma pergunta que não tem uma resposta única.

Não acredito em demonizar a tecnologia. Ela faz parte da educação, das relações, do entretenimento e estará cada vez mais presente na vida profissional dessa geração. O que me preocupa é entregarmos ferramentas extremamente estimulantes a crianças cada vez mais novas e esperarmos que elas saibam, sozinhas, estabelecer os próprios limites.

Segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, 92% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos utilizam a internet. Entre os usuários, 71% usam redes sociais.

Estamos, portanto, falando de uma experiência que já faz parte da infância e da adolescência.

Por que é tão difícil simplesmente “largar o celular”?

Para entender isso, precisamos olhar para o cérebro adolescente.

A adolescência é um período de grandes transformações. Pertencer ao grupo, ser aceito, receber reconhecimento e experimentar novidades ganha uma importância enorme, enquanto habilidades relacionadas ao planejamento, à avaliação das consequências e ao controle dos impulsos continuam amadurecendo.

Agora pense na dinâmica das redes.

Uma notificação. Uma curtida. Uma mensagem. Um vídeo novo. Outro vídeo. Alguém respondeu. Alguém visualizou e não respondeu. Os amigos estão em algum lugar e você não está.

Existe sempre alguma coisa acontecendo.

Para um adolescente, isso pode ter um peso emocional muito maior do que imaginamos. Portanto, quando um jovem tem dificuldade para interromper o uso, nem sempre estamos diante de simples “falta de disciplina”.

É justamente por isso que a autorregulação precisa ser ensinada.

Limite não é castigo

Pais precisam estabelecer regras. Crianças e adolescentes ainda precisam de adultos capazes de dizer “agora chega”, inclusive quando eles não gostam de ouvir.

Mas limite funciona melhor quando existe sentido.

Não basta determinar duas horas de celular se ninguém conversa sobre o que acontece durante essas duas horas.

Seu filho segue quem? Que tipo de conteúdo aparece repetidamente para ele? Com quem conversa? O que publica? Ele sabe reconhecer uma situação perigosa? Sabe o que fazer se alguém pedir uma fotografia íntima, ameaçá-lo ou constrangê-lo? Consegue contar para você sem imaginar que a primeira reação será tomar seu celular?

Essas perguntas são tão importantes quanto olhar para o relógio.

Controle parental ajuda. Mas não substitui vínculo

Hoje existem ferramentas muito mais sofisticadas para limitar horários, restringir conteúdos e supervisionar contas de adolescentes. Acho importante que as famílias conheçam e utilizem esses recursos de acordo com a idade dos filhos.

Só que nenhum controle parental substitui uma conversa.

Se o adolescente acredita que contar alguma coisa aos pais significará imediatamente perder o celular, existe uma grande chance de esconder justamente aquilo que os adultos precisariam saber.

Supervisão não deveria significar apenas fiscalização.

Supervisão precisa caminhar junto com vínculo.

Quero que uma criança aprenda que pode procurar um adulto quando vir algo que a assuste. Quero que um adolescente consiga dizer que alguém o constrangeu, ameaçou ou pediu alguma coisa inadequada. E quero que saiba que pedir ajuda não significa automaticamente receber uma bronca.

Isso também é segurança digital.

E não podemos ignorar como eles se sentem depois

Há uma pergunta muito simples que recomendo aos pais: como seu filho fica depois de passar muito tempo nas redes?

Mais tranquilo? Irritado? Ansioso? Agitado? Comparando a própria aparência? Preocupado com o que os outros estão fazendo? Dormindo mais tarde porque não consegue parar?

Não precisamos vigiar cada expressão do adolescente, mas mudanças persistentes de comportamento merecem atenção.

Também precisamos olhar para o sono. Um celular que permanece ao lado da cama, recebendo notificações durante a madrugada, não interfere apenas no tempo de tela. Pode interferir justamente em algo fundamental para o desenvolvimento: dormir adequadamente.

Então devemos proibir?

Não acredito que essa seja a pergunta mais produtiva.

Existem idades, ambientes e situações em que restringir é necessário. Ao mesmo tempo, nosso objetivo não pode ser criar um jovem que só consiga utilizar tecnologia de maneira adequada enquanto existe um adulto fiscalizando.

Em algum momento, ele estará sozinho.

Por isso, além de proteger, precisamos educar para a autonomia digital.

Ensinar privacidade. Conversar sobre exposição. Explicar que uma imagem enviada pode circular. Falar sobre golpes, conteúdos manipulados, cyberbullying e pessoas que não são quem dizem ser. Ensinar a questionar aquilo que aparece na tela e, principalmente, a perceber quando aquela experiência começa a fazer mal.

A responsabilidade não pode ficar nas costas do adolescente

Essa foi uma das questões que mais enfatizei quando conversei com o Terra.

As famílias têm responsabilidade. As escolas têm responsabilidade. As plataformas também têm. E o poder público precisa estabelecer regras de proteção.

O que não considero razoável é colocar toda essa responsabilidade sobre uma criança ou um adolescente cujo cérebro ainda está desenvolvendo justamente habilidades necessárias para regular impulsos e avaliar consequências.

Costumo fazer uma comparação bastante simples: não entregamos a chave de um carro para um adolescente sem antes ensinar regras, riscos e responsabilidades.

Com o ambiente digital, durante muito tempo fizemos quase o contrário.

Entregamos uma ferramenta poderosíssima e esperamos que crianças e adolescentes descobrissem sozinhos como utilizá-la.

Agora estamos percebendo que essa conta precisa ser dividida.

E talvez a pergunta mais importante para os pais não seja apenas “quanto tempo meu filho passa no celular?”, mas também:

“Estou ensinando meu filho a viver no mundo digital quando eu não estiver ao lado dele?”

Porque proteger é necessário enquanto eles precisam de nós. Prepará-los para fazer boas escolhas quando estivermos longe também faz parte do desenvolvimento.

Com carinho,

Mayra Gaiato –  Psicóloga e neurocientista

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