Nos últimos anos, algumas palavras passaram a aparecer com muita frequência nas nossas conversas: epidemia, aumento, prevalência, diagnóstico, saúde mental, autismo, ansiedade, depressão.
Precisamos falar sobre tudo isso. Precisamos de ciência, dados, pesquisas, diagnóstico, tratamento e políticas públicas.
Mas existe algo que não podemos perder no meio de tantos números: antes de estarmos falando de uma condição, estamos falando de gente.
De uma mulher. De uma mãe. De uma criança. De um adolescente. De uma família.
Estamos falando de alguém que acorda pela manhã, que tem responsabilidades, medos, afetos, dificuldades, sonhos e limites. Alguém que talvez esteja tentando dar conta de uma vida que, vista de fora, ninguém consegue compreender completamente.
Quando transformamos o sofrimento apenas em estatística, existe o risco de nos colocarmos do lado de fora.
“É a saúde mental das mães.”
“É o aumento dos diagnósticos.”
“É a sobrecarga dos cuidadores.”
“É o autismo.”
Como se estivéssemos falando de um fenômeno distante. Como se fossem sempre os outros.
O que isso tem a ver comigo?
Talvez essa seja uma pergunta que precisemos fazer com mais frequência.
Quando uma mãe está exausta, quando uma família não tem rede de apoio, quando uma pessoa está emocionalmente adoecida ou quando alguém passa anos tentando funcionar enquanto enfrenta dificuldades que ninguém percebe, isso não deveria interessar apenas aos profissionais de saúde ou às pessoas que vivem a mesma realidade.
Uma sociedade também é construída pela maneira como percebe — ou deixa de perceber — a dor do outro.
E se implicar não significa acreditar que somos capazes de resolver a vida de alguém.
Às vezes significa perguntar e realmente esperar pela resposta.
Significa não minimizar quando alguém diz que não está conseguindo.
Significa dividir uma tarefa.
Oferecer ajuda concreta.
Perceber uma mudança de comportamento.
Não transformar sofrimento em fraqueza, ingratidão ou falta de esforço.
E, quando necessário, ajudar aquela pessoa a chegar até quem pode oferecer cuidado profissional.
Precisamos enxergar a pessoa inteira
Isso também vale quando falamos de autismo.
Uma pessoa autista não pode ser reduzida ao diagnóstico. Uma mãe atípica não pode existir socialmente apenas como cuidadora. Uma criança com deficiência não pode ser vista somente a partir das dificuldades que apresenta.
Diagnósticos são importantes. Dados são fundamentais. A ciência nos ajuda a compreender fenômenos, construir intervenções e cobrar políticas públicas.
Mas nenhuma estatística consegue contar completamente uma vida.
Por isso, sempre que ouvirmos falar em uma “epidemia” de adoecimento mental, em aumento de transtornos psiquiátricos, em crescimento dos diagnósticos de autismo ou em qualquer outro fenômeno que envolva comportamento e saúde humana, talvez devêssemos fazer um exercício muito simples:
lembrar de quem existe atrás do número.
Porque algumas questões que parecem não nos dizer respeito podem estar acontecendo muito perto de nós.
No fim, antes da ciência, do diagnóstico, da prevalência e da estatística, existe uma pessoa.
E talvez uma das formas mais humanas de cuidado seja não esperar que a dor dela se torne grande demais para finalmente percebermos que ela estava ali.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e neurocientista