Autismo e inteligência: quando as habilidades da criança podem fazer alguns sinais passarem despercebidos

Autismo e inteligência não são características excludentes do TEA, mas é importante observar o desenvolvimento da criança de maneira ampla.

Quando pensamos nos sinais do autismo em crianças, é comum imaginar dificuldades bastante perceptíveis na comunicação, na interação social ou no comportamento. Mas nem sempre essas características aparecem de maneira tão evidente.

Algumas crianças autistas apresentam boas habilidades cognitivas, aprendem rapidamente, têm vocabulário desenvolvido e conseguem acompanhar muito bem as atividades escolares. Em alguns casos, esses recursos podem ajudá-las a criar estratégias para lidar com situações que são naturalmente mais desafiadoras.

Com isso, determinados sinais podem passar despercebidos por familiares, professores e outras pessoas que convivem com a criança.

Crianças inteligentes podem ser autistas?

Sim. Inteligência e autismo não são características excludentes.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta diferentes manifestações e necessidades de suporte. Por isso, não existe apenas uma maneira de uma criança autista se comunicar, aprender, brincar ou se relacionar.

Um bom desempenho acadêmico, uma fala desenvolvida ou uma grande capacidade de aprendizagem, por exemplo, não são suficientes para descartar a possibilidade de autismo.

É importante observar o desenvolvimento da criança de maneira ampla, considerando não apenas aquilo que ela consegue fazer, mas também como realiza determinadas tarefas e quanto esforço precisa fazer para se adaptar.

Como a inteligência pode fazer sinais do autismo passarem despercebidos?

Algumas crianças desenvolvem estratégias para lidar com dificuldades sociais e de comunicação.

Elas podem observar outras pessoas e aprender como devem agir em determinadas situações. Podem imitar expressões, copiar comportamentos, memorizar respostas ou criar regras próprias para conduzir uma conversa.

Para quem observa de fora, determinadas interações podem parecer espontâneas.

Para a criança, porém, acompanhar constantemente essas situações pode exigir um esforço significativo.

Esse processo pode estar relacionado ao que é chamado de camuflagem ou mascaramento de características autistas.

O que é mascaramento no autismo?

O mascaramento ocorre quando uma pessoa busca esconder, controlar ou compensar determinadas características para se adaptar às expectativas sociais.

Na infância, isso pode acontecer de diferentes maneiras.

Uma criança pode observar atentamente os colegas para saber como participar de uma brincadeira, ensaiar mentalmente o que dizer, imitar comportamentos socialmente esperados ou controlar determinadas reações enquanto está em ambientes como a escola.

Isso não significa necessariamente que a criança esteja fazendo algo de maneira consciente ou intencional.

Ao longo do desenvolvimento, algumas dessas estratégias podem simplesmente se tornar uma forma de lidar com o ambiente.

Quando a criança parece bem na escola, mas chega exausta em casa

Esse contraste merece atenção.

Uma criança pode passar o dia acompanhando atividades, conversando com colegas e cumprindo aquilo que é esperado dela. Ao chegar em casa, porém, pode demonstrar irritabilidade, exaustão, necessidade de isolamento ou maior dificuldade para lidar com frustrações e mudanças.

Por isso, avaliar apenas o comportamento apresentado na escola pode não revelar toda a experiência da criança.

É importante entender também quanto esforço está sendo necessário para que ela consiga acompanhar aquele ambiente.

Bom desempenho escolar exclui autismo?

Não.

Notas altas, facilidade para aprender, boa memória, interesses aprofundados ou vocabulário desenvolvido não descartam o TEA.

Da mesma maneira, nenhuma dessas características, isoladamente, indica que uma criança seja autista.

A investigação precisa considerar diferentes aspectos do desenvolvimento, incluindo comunicação e interação social, padrões de comportamento e interesses, aspectos sensoriais, histórico do desenvolvimento e funcionamento da criança em diferentes ambientes.

É justamente essa análise conjunta que ajuda os profissionais a compreenderem se determinados comportamentos fazem parte de características individuais ou se existe uma condição do neurodesenvolvimento que precisa ser investigada.

Alguns sinais podem ser confundidos com personalidade

Quando as dificuldades são menos evidentes, determinados comportamentos podem receber explicações como:

“Ela é muito tímida.”

“Ele é perfeccionista.”

“Ela sempre foi muito sensível.”

“Ele prefere conversar com adultos.”

“Ela é muito intensa.”

Essas características podem fazer parte da personalidade de qualquer criança e não significam, por si só, autismo.

O que merece atenção é a presença de um conjunto persistente de características, especialmente quando elas interferem no bem-estar, na autonomia, nas relações ou na rotina da criança.

Por que uma avaliação especializada é importante?

A avaliação não deve partir da ideia de encaixar uma criança em uma lista de sintomas.

O objetivo é compreender seu desenvolvimento de maneira individualizada.

Uma avaliação especializada pode investigar potencialidades, dificuldades, formas de comunicação e interação, necessidades de suporte e outros aspectos importantes para compreender o funcionamento daquela criança.

Mesmo quando uma hipótese de autismo não é confirmada, a investigação pode fornecer informações importantes para orientar a família e identificar necessidades que merecem acompanhamento.

Quando procurar ajuda?

Não é necessário esperar que os sinais se tornem mais intensos para buscar orientação.

Se pais, responsáveis ou educadores percebem diferenças persistentes no desenvolvimento, dificuldades de adaptação, grande esforço nas interações sociais ou outros comportamentos que despertam dúvidas, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender melhor o que está acontecendo.

Uma criança não precisa se encaixar na imagem que muitas pessoas têm do autismo para que suas necessidades mereçam ser investigadas.

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