Seu filho está preparado para ser quem ele é? Como fortalecer crianças diante do bullying e da pressão para “se encaixar”

Infelizmente, pessoas autistas ainda são atingidas pelo bullying. Saiba como proteger seu filho nessas situações.

A autoestima e as habilidades socioemocionais podem ser fatores de proteção importantes. No caso de muitas meninas autistas, o esforço para esconder características do autismo — conhecido como masking — pode trazer consequências para a saúde mental.

A volta às aulas traz reencontros, novos aprendizados e muitas oportunidades de convivência. Mas, para algumas crianças, esse também é o período em que aparecem os medos: o receio de ser excluído, de não conseguir fazer amigos ou de sofrer comentários por ser diferente.

Como mãe ou pai, é natural querer proteger o filho de qualquer sofrimento. A verdade, porém, é que nem sempre conseguiremos evitar todas as situações difíceis. O que podemos fazer é ajudá-lo a construir recursos emocionais para lidar com elas e, principalmente, mostrar que ele nunca precisará enfrentá-las sozinho.

O desejo de pertencer começa cedo

Toda criança quer fazer parte de um grupo.

Ela observa os colegas, aprende regras sociais, testa comportamentos e busca formas de ser aceita.

Esse processo faz parte do desenvolvimento.

O problema começa quando ela acredita que só será aceita se esconder quem realmente é.

Algumas passam a mudar a forma de falar, deixam de demonstrar interesses que gostam ou evitam determinados comportamentos por medo de serem julgadas.

Quando isso acontece com frequência, o custo emocional pode ser muito alto.

O que é o masking?

Entre muitas meninas autistas, existe um fenômeno conhecido como masking ou camuflagem social.

Elas observam cuidadosamente as outras crianças e passam a imitar expressões, gestos, formas de conversar e maneiras de brincar para parecerem “iguais” às colegas.

Muitas conseguem esconder características do autismo durante anos.

Por isso, não é raro que recebam o diagnóstico apenas na adolescência ou na vida adulta.

Embora essa estratégia possa facilitar algumas interações sociais, ela costuma exigir um esforço enorme. 

Com o tempo, pode levar à exaustão emocional, aumento da ansiedade, queda da autoestima e uma constante sensação de não poder ser quem realmente é.

A autoestima é um fator de proteção

Não podemos controlar todas as atitudes das outras pessoas, mas podemos fortalecer a forma como a criança percebe a si mesma.

Uma criança que cresce sabendo que é amada, respeitada e valorizada tende a desenvolver mais segurança para enfrentar desafios e pedir ajuda quando necessário.

Isso não significa que ela nunca sofrerá.

Significa que ela terá uma base emocional mais sólida para lidar com as dificuldades.

Como os pais podem ajudar?

Fortalecer uma criança começa nas pequenas atitudes do dia a dia.

Valorize quem ela é, e não apenas o que ela faz. Elogiar somente notas, desempenho ou comportamento pode fazer com que ela associe seu valor apenas aos resultados. Reconheça também sua curiosidade, criatividade, esforço e sensibilidade.

Ensine que ser diferente não é um problema. Cada criança tem seu jeito de aprender, brincar, falar e se relacionar. Diferenças fazem parte da vida.

Converse sobre amizades saudáveis. Explique que um bom amigo respeita, acolhe e não faz com que ela precise mudar para ser aceita.

Mostre que pedir ajuda é um sinal de coragem. Muitas crianças silenciam o sofrimento por medo de decepcionar os pais ou de piorar a situação. Elas precisam saber que sempre haverá um adulto disposto a ouvi-las.

Quando o bullying acontece

É importante lembrar que a responsabilidade pelo bullying nunca é da criança que sofre a agressão.

Ela não precisa aprender a suportar a violência.

Precisa encontrar adultos que a protejam, acolham e intervenham de forma adequada.

Família e escola devem caminhar juntas para construir ambientes seguros, onde as diferenças sejam respeitadas e cada criança tenha espaço para desenvolver seu potencial.

O maior presente que podemos oferecer

Mais do que ensinar nossos filhos a se encaixar, precisamos ajudá-los a entender que eles têm valor exatamente por serem quem são.

Uma criança emocionalmente fortalecida não é aquela que nunca enfrenta dificuldades.

É aquela que sabe que pode ser autêntica, que encontra acolhimento quando precisa e que cresce com a certeza de que não precisa esconder sua essência para merecer ser amada ou respeitada.

E esse é um aprendizado que levará para toda a vida.

Com carinho,

Mayra Gaiato

Psicóloga e Neurocientista

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