Quem convive com uma pessoa autista provavelmente já ouviu os termos meltdown e shutdown. Apesar de serem cada vez mais utilizados, ainda existe muita confusão sobre o que eles realmente significam.
Os dois são respostas do cérebro a uma situação de sobrecarga. A diferença está na forma como essa sobrecarga se manifesta.
Compreender esses sinais é um passo importante para oferecer apoio adequado e evitar interpretações equivocadas.
O que é um meltdown?
O meltdown é uma resposta intensa do sistema nervoso quando a pessoa ultrapassa seu limite de adaptação diante de estímulos ou situações estressantes.
Durante um meltdown, o cérebro entra em um estado de sobrecarga que compromete a capacidade de regular emoções e comportamentos.
A pessoa pode:
- chorar intensamente;
- gritar;
- correr ou tentar fugir;
- jogar objetos;
- apresentar movimentos repetitivos mais intensos;
- em alguns casos, machucar a si mesma ou bater em outras pessoas.
É importante entender que isso não é uma birra nem uma tentativa de manipular os adultos. Trata-se de uma resposta involuntária a um nível de estresse que aquele cérebro não conseguiu mais processar.
O que é um shutdown?
No shutdown, a sobrecarga acontece da mesma forma, mas a resposta é oposta.
Em vez de uma explosão de comportamentos, ocorre um “desligamento”.
A pessoa pode:
- parar de falar;
- responder muito lentamente;
- evitar contato visual;
- permanecer imóvel;
- demonstrar dificuldade para tomar decisões simples;
- querer ficar sozinha ou em um ambiente silencioso.
Muitas vezes, quem observa acredita que ela está apenas cansada ou distraída. Na realidade, também pode estar vivendo uma crise.
O que pode desencadear essas crises?
Cada pessoa é única, mas alguns fatores costumam aparecer com frequência:
- excesso de barulho;
- luzes intensas;
- ambientes cheios;
- mudanças inesperadas na rotina;
- frustração;
- dificuldades de comunicação;
- cansaço físico ou emocional;
- excesso de demandas ao mesmo tempo.
Por isso, conhecer os gatilhos individuais faz parte do cuidado.
Como agir durante um meltdown ou shutdown?
O primeiro objetivo nunca deve ser “parar a crise”. Deve ser reduzir a sobrecarga e garantir segurança.
Algumas atitudes costumam ajudar:
- diminuir os estímulos do ambiente;
- falar com calma e usando frases curtas;
- evitar broncas, discussões ou punições;
- respeitar o tempo da pessoa para se reorganizar;
- permanecer por perto, transmitindo segurança, sem exigir contato se ela não desejar.
Depois que o cérebro recupera sua capacidade de autorregulação, é possível conversar sobre o que aconteceu e pensar em estratégias para prevenir novas crises.
Quanto mais conhecemos, melhor conseguimos cuidar
Meltdowns e shutdowns fazem parte da experiência de muitas pessoas autistas, mas nem sempre são reconhecidos por quem está ao redor.
Quando entendemos que essas respostas não são uma escolha, mas uma consequência da sobrecarga do sistema nervoso, mudamos também a forma de acolher.
Mais do que controlar comportamentos, o objetivo deve ser compreender o que levou o cérebro a chegar naquele limite e construir estratégias que promovam mais segurança, autonomia e qualidade de vida.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e Neurocientista