Quando uma criança está ansiosa, nem sempre ela consegue dizer: “Estou preocupada”, “Estou com medo” ou “Não estou dando conta disso”.
Muitas vezes, nós percebemos primeiro uma mudança no comportamento.
Ela começa a dormir pior, fica mais irritada, reclama de dor de barriga, evita determinadas situações, demonstra dificuldade para se separar dos pais ou passa a ter mais resistência para ir à escola.
Em algumas crianças, o corpo também pode participar dessa história. E a pele é um dos lugares em que essa relação entre saúde física e emocional pode se tornar mais evidente.
Isso não significa que ansiedade seja a causa de toda dermatite, nem que uma doença de pele seja “emocional”.
Condições dermatológicas têm mecanismos biológicos próprios e precisam ser avaliadas e tratadas adequadamente.
Mas sabemos que pele, cérebro, sistema imunológico e resposta ao estresse se comunicam, e períodos de maior estresse podem contribuir para a piora de algumas condições dermatológicas.
Na infância, essa relação merece ainda mais atenção porque pode formar um ciclo: a criança fica ansiosa, a pele piora, a coceira aumenta, o sono é prejudicado e, no dia seguinte, ela está mais cansada, irritada e com dificuldade para se concentrar.
O que a ansiedade tem a ver com a pele?
Quando estamos diante de uma situação percebida como ameaçadora ou estressante, nosso organismo mobiliza diferentes sistemas para responder a ela.
Um deles envolve o chamado eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, o eixo HPA, que participa da resposta fisiológica ao estresse e da liberação de hormônios como o cortisol.
O sistema nervoso autônomo e diferentes mediadores inflamatórios também participam dessa resposta.
Isso é normal e necessário. O problema aparece quando a ativação se torna muito frequente ou prolongada.
A pele não está isolada desse processo.
Ela possui células imunológicas, terminações nervosas e receptores que participam dessa comunicação entre o ambiente, o sistema nervoso e o sistema imunológico.
Por isso, em algumas doenças inflamatórias da pele, o estresse pode funcionar como um fator de exacerbação.
Um exemplo bastante conhecido é a dermatite atópica, uma doença inflamatória crônica caracterizada, entre outros sintomas, por pele seca e coceira intensa.
O estresse não é a única causa da dermatite atópica, mas pode contribuir para a piora dos sintomas em algumas pessoas.
E aqui começa uma relação de mão dupla: o estado emocional pode influenciar a pele, mas viver com uma doença de pele também pode afetar o estado emocional da criança.
Quando a coceira também atrapalha o sono
Talvez esse seja um dos pontos que mais precisamos observar nas crianças.
Uma dermatite que provoca muita coceira não termina quando a criança vai para a cama. Ela pode demorar para adormecer, despertar durante a noite ou ter um sono fragmentado porque acorda para se coçar.
E nós sabemos o quanto o sono é importante para o cérebro em desenvolvimento.
Durante a infância, dormir adequadamente está relacionado a processos importantes de atenção, memória, aprendizagem e regulação emocional. Uma criança que dormiu mal pode chegar à escola mais cansada, irritada, menos tolerante à frustração e com maior dificuldade para sustentar a atenção.
Por isso, às vezes, o problema que aparece na sala de aula não começa na sala de aula.
“Ele não presta atenção”: será mesmo tão simples?
Imagine uma criança que passou parte da noite acordando por causa da coceira.
No dia seguinte, ela precisa permanecer sentada, acompanhar uma explicação, selecionar informações importantes, ignorar estímulos ao redor, lembrar instruções e realizar uma atividade.
Se essa criança está cansada, desconfortável ou preocupada com a própria pele, tudo isso pode ficar mais difícil.
Antes de concluirmos que ela é desinteressada, preguiçosa ou “não presta atenção”, precisamos olhar para o contexto.
A ansiedade por si só também pode competir com a aprendizagem. Quando boa parte dos recursos atencionais da criança está voltada para pensamentos de preocupação ou para a percepção de ameaça, pode sobrar menos disponibilidade para aquilo que está sendo ensinado naquele momento.
Isso não significa que toda dificuldade escolar seja provocada pela ansiedade ou por uma dermatite. Significa que comportamento e desempenho precisam ser compreendidos considerando também o que está acontecendo com aquela criança fora da atividade escolar.
A própria aparência da pele pode se tornar uma fonte de ansiedade
Existe ainda outra dimensão importante.
Dependendo da idade e da extensão das lesões, a criança pode começar a perceber olhares, perguntas e comentários sobre sua pele.
“Isso pega?”
“O que aconteceu com seu braço?”
“Por que sua pele está assim?”
Aquilo que para um adulto pode parecer apenas curiosidade pode ser muito desconfortável para uma criança.
Em idade escolar, pertencimento e aceitação pelos pares ganham cada vez mais importância. Quando uma condição dermatológica é visível, algumas crianças podem sentir vergonha, evitar determinadas roupas, atividades ou brincadeiras e até se afastar socialmente.
Se houver comentários ofensivos ou bullying, o impacto pode ser ainda maior.
Por isso, cuidar da pele também envolve cuidar da maneira como a criança está vivendo aquela condição.
Como perceber ansiedade em uma criança que ainda não sabe explicar o que sente?
Nem sempre a ansiedade infantil se parece com a ansiedade de um adulto.
Podemos observar irritabilidade, choro mais frequente, alterações no sono, queixas físicas recorrentes, medo excessivo, necessidade constante de confirmação, dificuldade de separação, recusa escolar ou evitação de situações que antes faziam parte da rotina.
Algumas crianças ficam mais agitadas. Outras se fecham.
Por isso, uma mudança importante e persistente em relação ao comportamento habitual merece ser observada.
Também é interessante perceber quando os sintomas aparecem ou pioram. A coceira aumenta antes de uma prova? A criança reclama mais da pele nos domingos à noite? Houve mudança de escola? Está enfrentando dificuldades com colegas? A família está passando por alguma situação diferente?
Não para concluir automaticamente que “é psicológico”, mas para ajudar profissionais e familiares a compreenderem o quadro como um todo.
O que os pais podem fazer?
O primeiro cuidado é não escolher entre tratar “a pele” ou tratar “o emocional”. Dependendo da situação, as duas dimensões precisam ser acompanhadas.
Se existem lesões, coceira persistente ou piora de uma dermatite, a avaliação médica é importante. Ao mesmo tempo, se a criança apresenta sinais frequentes de ansiedade, sofrimento emocional, prejuízo no sono, na escola, nas relações ou nas atividades cotidianas, uma avaliação psicológica também pode ser necessária.
Em casa, podemos ajudá-la a construir recursos de regulação emocional adequados à idade.
Atividade física, brincadeiras ao ar livre, rotina de sono, momentos de menor estimulação e atividades prazerosas podem fazer parte desse cuidado. Algumas crianças relaxam desenhando ou pintando; outras gostam de música, movimento, brincar com os pais ou simplesmente conversar.
Também podemos ensinar estratégias simples de respiração e ajudá-las a identificar aquilo que acontece no próprio corpo: “Seu coração parece estar batendo mais rápido?”, “Você percebeu que está se coçando mais?”, “Quer me contar o que estava pensando agora?”.
O objetivo não é ensinar uma criança pequena a controlar todas as suas emoções. É ajudá-la, aos poucos, a reconhecer o que sente e descobrir maneiras mais saudáveis de atravessar esses momentos.
Na escola, acolher também faz diferença
Quando ansiedade, sono ou uma condição dermatológica estão interferindo na rotina, escola e família precisam conversar.
Talvez aquela criança precise ter acesso ao hidratante prescrito, usar roupas que reduzam o desconforto, fazer uma pequena pausa em determinados momentos ou simplesmente contar com um professor que compreenda por que naquele período ela está mais cansada ou desconcentrada.
E, se a aparência da pele estiver gerando comentários ou constrangimento entre os colegas, isso não deve ser tratado como uma questão menor.
Inclusão também significa construir um ambiente em que uma característica física ou uma condição de saúde não se transforme em motivo para isolamento.
A criança precisa ser vista por inteiro
Nós gostamos de separar as coisas: a pele é do dermatologista, a ansiedade é do psicólogo, a aprendizagem é da escola.
Mas a criança não vive dividida dessa maneira.
Ela leva para a escola o corpo que não dormiu bem, a coceira que incomoda, a preocupação que ainda não consegue explicar, a experiência que teve com os colegas e tudo aquilo que está acontecendo em casa.
Por isso, quando uma criança muda de comportamento ou começa a apresentar dificuldades, vale substituir rapidamente o “o que há de errado com ela?” por uma pergunta muito mais útil:
“O que pode estar acontecendo com essa criança?”
Porque o desenvolvimento infantil envolve cérebro, corpo, emoções, relações e ambiente. E, muitas vezes, cuidar melhor começa justamente quando conseguimos olhar para tudo isso junto.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista