Inclusão não é só estar na sala: por que o acompanhamento especializado pode fazer diferença na escola

O número de estudantes autistas nas escolas brasileiras cresceu rapidamente nos últimos anos. Agora, o desafio é garantir que estar matriculado também signifique aprender, participar, criar vínculos e desenvolver autonomia.

Nos últimos anos, vimos uma mudança muito importante acontecer nas escolas brasileiras: cada vez mais crianças e adolescentes autistas estão frequentando o ensino regular.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. 

Dados do Censo Escolar 2025, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que o Brasil chegou a 1,29 milhão de matrículas de estudantes com transtorno do espectro autista na educação especial. 

Em 2021, eram cerca de 294 mil. 

É uma conquista enorme. Mas ela também nos coloca diante de uma pergunta que considero fundamental: essas crianças estão apenas dentro da escola ou estão, de fato, incluídas nela?

Porque a inclusão não termina quando a criança atravessa o portão.

Estar na sala não significa necessariamente conseguir participar

Uma sala de aula é um ambiente extremamente complexo.

A criança precisa acompanhar instruções, compreender regras, esperar, mudar de atividade, dividir materiais, conviver com barulho, interpretar situações sociais, comunicar necessidades e lidar com frustrações. 

Tudo isso enquanto aprende matemática, português, ciências e tantos outros conteúdos.

Para algumas crianças autistas, essas demandas podem representar desafios importantes.

Uma criança pode saber perfeitamente o conteúdo e não conseguir permanecer sentada durante determinada atividade. 

Outra pode ter dificuldade para pedir ajuda. Algumas precisam de apoio para compreender uma instrução coletiva, organizar os materiais, iniciar uma tarefa ou participar de uma brincadeira no recreio.

É justamente aí que o acompanhamento especializado, quando necessário, pode fazer diferença.

O acompanhante não está ali para fazer pela criança

Esse é um ponto que considero muito importante.

O objetivo de um bom acompanhamento não deve ser criar dependência. Muito menos fazer atividades pela criança, responder por ela ou permanecer o tempo inteiro antecipando qualquer dificuldade.

O profissional precisa ajudar a construir caminhos para que aquele aluno consiga participar cada vez mais sozinho.

Às vezes, isso significa adaptar uma instrução. Em outros momentos, usar um apoio visual, ajudar na transição entre atividades, ensinar a criança a pedir uma pausa ou mediar uma interação com os colegas.

O apoio deve funcionar como uma ponte para a autonomia.

E, conforme determinadas habilidades são adquiridas, essa ajuda pode ser gradualmente reduzida sempre que isso for possível e adequado para aquela criança.

Cada aluno precisa de um tipo de suporte

Autismo é espectro. Por isso, não existe um modelo único de acompanhamento que funcione para todos.

Nem toda criança autista precisa de um acompanhante individual durante todo o período escolar. Outras podem necessitar desse apoio de maneira muito significativa.

O mais importante é olhar para as necessidades funcionais daquele estudante dentro daquele ambiente, e não simplesmente para o diagnóstico ou para o nível de suporte escrito em um documento.

Inclusive, as orientações mais recentes para a educação inclusiva caminham nessa direção. O planejamento do Atendimento Educacional Especializado (AEE) deve considerar as barreiras encontradas no contexto escolar e envolver professor especializado, professor da classe comum, família e, quando possível, o próprio estudante.

AEE também faz parte dessa rede

O Atendimento Educacional Especializado não substitui a sala de aula comum.

Ele existe justamente para complementar a escolarização, identificando barreiras e desenvolvendo recursos pedagógicos e de acessibilidade que favoreçam a participação e a aprendizagem.

Hoje, o próprio Inep destaca que o AEE deve contribuir para habilidades cognitivas, socioemocionais, psicomotoras, comunicacionais e linguísticas, sempre considerando as singularidades do estudante.

E há uma mudança importante na forma de pensar esse processo: o foco não deve estar apenas na condição clínica da criança, mas nas barreiras que ela encontra para aprender e participar.

Isso muda bastante a conversa.

Em vez de perguntarmos apenas “qual é o diagnóstico?”, começamos a perguntar “do que esta criança precisa para conseguir aprender aqui?”

O professor também precisa de apoio

Quando falamos sobre inclusão, não podemos colocar toda a responsabilidade sobre o professor da sala regular.

Imagine uma turma com 25 ou 30 crianças, diferentes níveis de aprendizagem e um ou mais estudantes que necessitam de adaptações específicas. Não é razoável simplesmente entregar um laudo ao professor e esperar que ele descubra sozinho o que fazer.

Inclusão exige planejamento, formação, diálogo com a família e articulação entre professor, AEE, acompanhante especializado quando necessário e demais profissionais envolvidos com a criança.

Quando essa equipe conversa, conseguimos algo muito importante: generalizar habilidades.

Uma criança pode aprender na terapia a pedir ajuda, esperar, comunicar desconforto ou lidar melhor com uma mudança. Mas essas habilidades precisam aparecer também na escola, em casa, no parque, na vida.

É assim que aprendizagem se transforma em autonomia.

E existe um direito envolvido

Desde 2012, a Lei Berenice Piana estabelece que, em casos de comprovada necessidade, a pessoa autista incluída em classe comum do ensino regular tem direito a acompanhante especializado.

Esse direito é importante justamente porque igualdade não significa oferecer exatamente a mesma coisa para todas as crianças.

Algumas precisam de recursos diferentes para conseguir acessar as mesmas oportunidades.

O melhor apoio é aquele que ajuda a precisar de menos apoio

Eu gosto muito dessa ideia porque ela resume o que considero uma inclusão bem-feita.

Queremos que a criança participe da aula, aprenda, brinque no recreio, construa amizades, consiga comunicar suas necessidades e desenvolva cada vez mais independência.

O acompanhante especializado não deve se tornar uma sombra que separa a criança dos colegas. Deve ser alguém que ajuda a abrir caminhos para que ela consiga estar cada vez mais presente naquele ambiente.

Por isso, quando falamos em inclusão escolar, a pergunta não pode ser apenas quantas crianças autistas estão matriculadas.

Precisamos perguntar quantas estão aprendendo, participando, criando vínculos e tendo suas necessidades realmente compreendidas.

Colocar uma criança dentro da sala de aula é o começo.

Fazer com que ela pertença àquela sala é a verdadeira inclusão.

Com carinho,

Mayra Gaiato- Psicóloga e neurocientista

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