Hoje quero falar sobre um assunto que surgiu durante uma entrevista de rádio na semana passada.
A jornalista me perguntou como as famílias de crianças autistas e neurodivergentes poderiam se preparar para a chegada dos jogos do Brasil na Copa, das festas juninas e de toda essa época de comemorações, fogos, rojões, buzinas e música alta.
Enquanto respondia, eu pensei em quantas famílias vivem exatamente essa preocupação todos os anos.
Porque, para muita gente, junho e julho são meses de festa.
Mas para algumas crianças, podem ser meses de muito desconforto.
E talvez você já tenha vivido uma cena parecida.
O jogo começa.
Os fogos estouram.
A buzina toca e as pessoas falam alto, sem parar….
Seu filho tampa os ouvidos.
Fica inquieto.
Procura você.
Quer sair daquele ambiente.
Às vezes chora. Às vezes congela. Às vezes parece irritado sem que ninguém entenda exatamente por quê.
Nessa hora, é comum os adultos olharem apenas para o comportamento.
Mas eu costumo olhar para outra coisa.
Eu penso no que aquele cérebro está tentando fazer para lidar com a situação.
Estamos falando de uma criança que está recebendo uma quantidade de estímulos que talvez não consiga organizar naquele momento.
E isso faz toda a diferença.
Por isso, quando uma criança autista tampa os ouvidos, chora ou tenta fugir de um ambiente barulhento, ela nem sempre está exagerando.
Muitas vezes ela está sentindo um desconforto real.
O que é a hipersensibilidade auditiva?
A hipersensibilidade auditiva acontece quando determinados sons são percebidos de forma muito mais intensa do que para a maioria das pessoas.
O problema não é apenas o volume.
É a forma como o cérebro interpreta aquele estímulo.
Um rojão pode ser percebido como uma explosão imprevisível.
Uma buzina pode soar muito mais invasiva.
Uma caixa de som pode gerar uma sensação de sobrecarga difícil de explicar.
E quando vários desses estímulos acontecem ao mesmo tempo, o cérebro pode entrar em estado de alerta.
O que fazer na prática?
A boa notícia é que existem estratégias simples que costumam ajudar bastante.
Uma delas é antecipar o que vai acontecer.
Se você sabe que haverá fogos, buzinas ou música alta, converse antes.
Explique onde vocês vão.
O que pode acontecer.
Mostre fotos ou vídeos do local.
Prepare a criança para aquilo que ela vai encontrar.
Quanto mais previsível o cenário, menor tende a ser a ansiedade.
Outra estratégia importante é ter recursos de proteção disponíveis.
Abafadores de ruído, fones com redução sonora ou até um espaço mais tranquilo para pausas podem fazer uma enorme diferença.
E não, isso não significa acomodar a criança.
Significa oferecer suporte para que ela consiga participar.
O que a ABA Naturalista me ensinou sobre essas situações
Uma das coisas que mais gosto na ABA Naturalista é que ela não espera o problema acontecer para agir.
Ela ensina habilidades antes.
Por exemplo, eu gosto de ajudar as crianças a reconhecerem os próprios sinais de desconforto.
Perguntas simples podem fazer diferença:
“O barulho está confortável ou desconfortável?”
“Você quer fazer uma pausa?”
“Seu corpo está pedindo ajuda?”
Pode parecer algo pequeno.
Mas quando a criança aprende a identificar o que está sentindo, ela ganha mais autonomia para pedir ajuda antes que a situação fique insustentável.
Também gosto de construir planos junto com ela.
“O que vamos fazer se os fogos começarem?”
“Para onde podemos ir?”
“Quem pode te ajudar?”
Quando existe um plano, existe mais previsibilidade.
E quando existe mais previsibilidade, geralmente existe menos ansiedade.
Se o seu filho sofre com fogos, rojões, buzinas ou festas muito barulhentas, tente olhar além do comportamento.
Antes de pensar que ele está exagerando, pergunte-se:
“O que esse cérebro está tentando me comunicar?”
Porque, muitas vezes, ele não está tentando fugir da festa.
Está tentando se proteger de um mundo que ficou alto demais.
E quando entendemos isso, mudamos completamente a forma de ajudar.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e Neurocientista
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