Seu filho não deixa cortar o cabelo ou as unhas? Entenda o que pode estar acontecendo

Cortar o cabelo ou as unhas parece uma tarefa simples para a maioria das famílias. Mas, para muitas crianças autistas, esses momentos podem provocar choro intenso, crises e muito sofrimento.

Cortar o cabelo ou as unhas parece uma tarefa simples para a maioria das famílias. Mas, para muitas crianças autistas, esses momentos podem provocar choro intenso, crises e muito sofrimento.

Quando isso acontece, é comum ouvir frases como: “Ele precisa se acostumar” ou “É só segurar um pouco que passa”.

Na prática, nem sempre funciona assim.

Na maioria das vezes, a criança não está sendo “teimosa”. Ela está reagindo a estímulos que o cérebro interpreta de uma forma diferente.

O barulho da máquina, a vibração, o toque na cabeça, os fios caindo sobre a pele, o cheiro dos produtos ou até a imprevisibilidade da situação podem ser suficientes para desencadear uma sobrecarga sensorial.

A boa notícia é que existem estratégias, baseadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), que ajudam a tornar esse momento mais previsível e menos estressante.

O primeiro passo é descobrir o que realmente incomoda

Nem toda criança rejeita o corte de cabelo pelo mesmo motivo.

Algumas se incomodam com o som da máquina. Outras não suportam a sensação dos fios encostando no pescoço. Há crianças que se assustam com o toque na cabeça ou simplesmente não conseguem lidar com a mudança inesperada da rotina.

Antes de pensar em como resolver o problema, tente identificar qual estímulo está causando maior desconforto.

Essa observação faz toda a diferença, porque permite adaptar o ambiente e a forma de conduzir esse cuidado.

A preparação começa antes do corte

Na ABA naturalista, procuramos ensinar habilidades dentro de situações reais do dia a dia, respeitando o ritmo da criança.

Por isso, a preparação começa antes mesmo de entrar no salão.

Você pode mostrar fotos do local, assistir a vídeos de outras crianças cortando o cabelo, utilizar histórias sociais ou brincar de salão em casa usando um pente, uma toalha e uma tesoura de brinquedo.

Quanto mais previsível for a experiência, menor tende a ser a ansiedade.

Pequenos avanços também são conquistas

Nem sempre será possível cortar todo o cabelo na primeira tentativa.

E tudo bem.

Às vezes, o objetivo do primeiro dia pode ser apenas conhecer o salão. Depois, sentar na cadeira. Em outro momento, permitir que o profissional toque no cabelo.

Quando respeitamos esse processo, aumentamos as chances de que a criança construa confiança e participe de forma cada vez mais tranquila.

O ambiente faz diferença

Sempre que possível, escolha horários mais calmos, com menos movimento e menos estímulos.

Algumas crianças se sentem mais confortáveis usando abafadores de ruído. Outras preferem cortar o cabelo em casa, em um ambiente conhecido.

Não existe uma solução única.

O mais importante é adaptar o contexto às necessidades daquela criança, em vez de esperar que ela simplesmente suporte o desconforto.

E quando o desafio são as unhas?

Os mesmos princípios podem ser aplicados.

Vale transformar esse momento em uma experiência previsível e agradável, utilizando brincadeiras, músicas, livros ou outras atividades que a criança goste.

Se necessário, corte apenas uma ou duas unhas e faça pausas.

O objetivo não é terminar rapidamente, mas construir experiências positivas que facilitem os próximos cuidados.

Dessensibilizar não é forçar

Existe uma diferença importante entre ajudar a criança a tolerar um estímulo e obrigá-la a permanecer em uma situação de sofrimento.

A dessensibilização acontece de forma gradual, respeitando seus limites e oferecendo experiências de sucesso.

Quando insistimos além do que ela consegue suportar, aumentamos a probabilidade de que aquele momento seja associado ao medo, tornando as próximas tentativas ainda mais difíceis.

Mais do que conseguir cortar o cabelo ou as unhas naquele dia, queremos que a criança desenvolva recursos para enfrentar essas situações com cada vez mais segurança e autonomia.

Antes de cortar o cabelo ou as unhas, lembre-se:

✓ Observe qual estímulo realmente incomoda a criança (barulho, toque, cheiro, vibração ou fios sobre a pele).

✓ Prepare esse momento com antecedência usando fotos, vídeos, histórias sociais ou brincadeiras de faz de conta.

✓ Sempre que possível, escolha um ambiente mais tranquilo e horários com menos movimento.

✓ Respeite o tempo da criança. Às vezes, o maior avanço do dia será apenas sentar na cadeira ou permitir o toque.

✓ Valorize cada pequena conquista. O desenvolvimento acontece passo a passo.

✓ Se necessário, faça pausas. Nem todo cuidado precisa ser concluído de uma única vez.

✓ Evite forçar ou segurar a criança. A dessensibilização acontece de forma gradual, criando experiências positivas e aumentando a confiança.

Lembre-se: o objetivo não é apenas cortar o cabelo ou as unhas. É fazer com que a criança se sinta segura para enfrentar esse momento hoje e nas próximas vezes.

Com carinho,

Mayra Gaiato –  Psicóloga e Neurocientista

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