Prematuridade e autismo: nascer antes do tempo aumenta o risco?

Bebês prematuros apresentam maior probabilidade de alterações no neurodesenvolvimento, incluindo o autismo. Mas risco não é diagnóstico: entender o desenvolvimento e acompanhar os sinais desde cedo pode fazer toda a diferença.

Uma dúvida que aparece bastante quando falamos sobre desenvolvimento infantil é a relação entre prematuridade e autismo. Afinal, nascer antes do tempo aumenta a chance de uma criança ser autista?

Sabemos que existe uma associação. Crianças que nasceram prematuras apresentam maior ocorrência de autismo do que aquelas que nasceram a termo, e essa relação tende a ser mais evidente quanto menor a idade gestacional. Mas quero começar pelo ponto mais importante: prematuridade não significa que uma criança terá autismo.

O que ela nos diz é que estamos diante de um bebê cujo neurodesenvolvimento merece ser acompanhado com atenção.

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Pediatrics ajuda a dimensionar essa diferença. Pesquisadores acompanharam uma coorte sueca de crianças nascidas extremamente prematuras, antes das 27 semanas, e encontraram diagnóstico de autismo em 14,9% delas aos 12 anos, contra 2,4% no grupo nascido a termo. O mesmo estudo encontrou taxas maiores de TDAH, dificuldades de coordenação motora e outros desafios do neurodesenvolvimento entre os prematuros.

Uma revisão mais ampla da literatura já havia encontrado prevalência de aproximadamente 6% de autismo entre pessoas nascidas prematuras quando eram utilizados instrumentos diagnósticos, além de uma chance de diagnóstico cerca de 3,3 vezes maior em comparação à população geral.

O que acontece com o cérebro quando um bebê nasce prematuro?

As últimas semanas da gestação são um período extremamente importante para o desenvolvimento cerebral. O cérebro está crescendo rapidamente, formando e reorganizando conexões, amadurecendo circuitos e se preparando para uma vida que, biologicamente, ainda deveria acontecer dentro do útero.

Quando o bebê nasce antes do tempo, parte desse desenvolvimento passa a acontecer fora desse ambiente.

Isso não significa que seu cérebro necessariamente sofrerá uma alteração. O cérebro infantil tem uma enorme capacidade de adaptação e plasticidade. Mas quanto maior a prematuridade, maior a necessidade de observar o desenvolvimento com cuidado, especialmente quando existem outros fatores clínicos associados.

É justamente por isso que não gosto de trabalhar com a lógica do “vamos esperar para ver”.

Acompanhar não significa procurar um problema na criança. Significa não perder uma janela importante de desenvolvimento caso ela precise de ajuda.

O que os pais podem observar?

Nos primeiros meses, precisamos olhar para o desenvolvimento como um todo, considerando também a idade corrigida da criança.

É importante acompanhar como esse bebê sustenta e direciona o olhar, responde às pessoas, reage aos sons, desenvolve os movimentos, começa a se comunicar, demonstra interesse pelo outro e adquire novas habilidades.

Com o passar do tempo, alguns sinais merecem uma investigação mais cuidadosa: pouca resposta ao nome, dificuldade crescente na comunicação, poucos gestos comunicativos, pouco compartilhamento de interesses, diferenças importantes na interação social, comportamentos repetitivos, interesses muito restritos ou respostas sensoriais intensas.

Mas existe uma particularidade importante no prematuro: nem todo atraso ou comportamento diferente significa autismo.

Crianças prematuras também podem apresentar dificuldades motoras, de linguagem, atenção, processamento sensorial, audição, visão ou cognição. Algumas dessas características podem, inclusive, se sobrepor aos sinais utilizados nas triagens para autismo.

Uma revisão sistemática publicada em Pediatrics em 2025 chamou atenção justamente para isso. Os pesquisadores concluíram que os instrumentos atualmente utilizados para rastrear autismo apresentam limitações quando aplicados a crianças prematuras e não devem ser interpretados isoladamente.

Por isso, olhar para uma criança prematura exige contexto.

Não precisamos esperar um diagnóstico para estimular o desenvolvimento

Essa talvez seja a orientação que eu mais gostaria que as famílias guardassem.

Se existe uma dificuldade de linguagem, trabalhamos linguagem. Se existe uma dificuldade motora, avaliamos e estimulamos essa área. Se aparecem diferenças importantes na comunicação social, investigamos. Se há questões de alimentação, processamento sensorial, audição ou visão, procuramos os profissionais adequados.

O acompanhamento pode envolver pediatra ou neuropediatra e, conforme as necessidades da criança, profissionais como fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, psicólogo e outros especialistas.

A Academia Americana de Pediatria recomenda vigilância do desenvolvimento de crianças prematuras e reforça que a triagem para autismo não deve ser esquecida. A orientação geral inclui rastreamento específico para TEA aos 18 e 24 meses, além do acompanhamento contínuo do desenvolvimento.

E há um detalhe muito importante: mesmo uma criança que apresente resultado positivo em uma triagem e posteriormente não receba diagnóstico de autismo pode ter outras necessidades de desenvolvimento que mereçam intervenção.

Prematuridade pede acompanhamento, não medo

Quando apresentamos números sobre prematuridade e autismo, precisamos tomar muito cuidado para não transformar risco em destino.

A maioria das crianças prematuras não terá autismo. Ao mesmo tempo, sabemos que quanto mais prematuro o nascimento, maior pode ser a ocorrência de diferentes condições do neurodesenvolvimento. Um trabalho publicado em 2026 mostrou justamente que algumas dificuldades podem continuar aparecendo ou se tornar mais evidentes até a idade escolar, reforçando a importância de um acompanhamento que não termine simplesmente porque os primeiros anos passaram.

Para mim, essa é a principal mensagem.

Não precisamos olhar para um bebê prematuro procurando autismo em cada comportamento. Precisamos olhar para aquela criança inteira, acompanhar sua trajetória e perceber se alguma área está pedindo ajuda.

Porque o desenvolvimento infantil não é uma corrida para saber quem chega primeiro. Mas, quando uma criança precisa de suporte, quanto antes percebermos, mais cedo podemos oferecer oportunidades para que ela desenvolva todo o seu potencial.

Com carinho,

Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista

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