Autismo e epilepsia: o que a ciência já sabe — e o que ainda estamos descobrindo

Qual a relação entre autismo e epilepsia? Nesse texto te explico o que a ciência já sabe e o que ainda precisamos descobrir.

Uma das perguntas que mais recebo das famílias é: existe relação entre autismo e epilepsia?

A resposta é sim. 

Sabemos que pessoas autistas apresentam uma frequência maior de epilepsia quando comparadas à população em geral. 

Mas essa é uma daquelas situações em que a ciência nos convida a fazer algo muito importante: reconhecer que ainda não sabemos tudo.

E eu gosto de falar sobre isso.

Vivemos um momento em que as pessoas procuram respostas rápidas para perguntas complexas. Só que a neurociência não funciona dessa maneira. 

Ela avança justamente porque continua investigando aquilo que ainda não consegue explicar completamente.

O que já sabemos?

Hoje, as pesquisas mostram que a epilepsia é mais comum entre pessoas autistas do que na população em geral. 

Enquanto a epilepsia afeta cerca de 1% da população, entre pessoas autistas essa frequência pode chegar a 10% ou até 20%, dependendo das características do grupo estudado. 

Em alguns casos, principalmente quando existe deficiência intelectual associada, esse número pode ser ainda maior.

Mas quero deixar uma mensagem importante: isso não significa que toda pessoa autista terá epilepsia.

Na verdade, a maioria nunca apresentará uma crise convulsiva.

O autismo causa epilepsia?

Essa é outra dúvida bastante comum.

A resposta é não.

Também não podemos dizer que a epilepsia causa autismo.

O que a ciência tem demonstrado é que algumas alterações genéticas e processos relacionados ao desenvolvimento do cérebro podem aumentar a predisposição para as duas condições. Ou seja, elas podem compartilhar alguns mecanismos biológicos, mas ainda estamos entendendo exatamente como essa relação acontece.

Existem fases em que precisamos estar mais atentos?

Sim.

Os estudos mostram que existem dois períodos em que as crises epilépticas costumam aparecer com maior frequência em pessoas autistas: os primeiros anos de vida e a adolescência.

Isso não significa que todas as crianças passarão por isso, mas reforça a importância do acompanhamento médico e da observação cuidadosa do desenvolvimento.

Nem toda crise é igual

Quando pensamos em epilepsia, muitas pessoas imaginam imediatamente uma convulsão com movimentos intensos do corpo.

Mas nem sempre é assim.

Existem crises muito discretas, em que a criança simplesmente interrompe uma atividade por alguns segundos, fica com o olhar parado, parece “desligar” do ambiente ou apresenta movimentos repetitivos diferentes do habitual.

Ao mesmo tempo, alguns comportamentos do próprio autismo podem ser confundidos com crises epilépticas.

É por isso que eu sempre oriento as famílias: se surgir qualquer dúvida, conversem com o neurologista. Não tentem chegar a uma conclusão sozinhos.

O que ainda não sabemos?

Essa talvez seja a parte mais interessante.

Ainda não conseguimos responder por que algumas pessoas autistas desenvolvem epilepsia e outras não.

Também estamos tentando compreender quais fatores aumentam esse risco, por que determinadas crises aparecem apenas na adolescência e como algumas alterações genéticas influenciam esse processo.

Essas perguntas continuam mobilizando pesquisadores em todo o mundo.

E isso não significa que a ciência falhou.

Significa que ela continua trabalhando para oferecer respostas cada vez mais precisas.

Informação de qualidade traz tranquilidade

Sempre digo às famílias que conhecer essa associação não deve ser motivo para viver com medo.

Pelo contrário.

A informação serve para que possamos observar sinais importantes, buscar avaliação quando necessário e acompanhar o desenvolvimento da criança de forma segura.

Nem todo comportamento diferente é uma crise epiléptica.

E nem toda pessoa autista desenvolverá epilepsia.

O conhecimento não existe para aumentar a ansiedade das famílias. Ele existe para trazer segurança e orientar decisões baseadas em evidências.

É assim que acredito que a ciência deve chegar às pessoas: explicando o que já sabemos, reconhecendo aquilo que ainda estamos descobrindo e, acima de tudo, ajudando famílias a compreenderem melhor seus filhos.

Com carinho,

Mayra Gaiato –  Psicóloga e Neurocientista

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