Animais também podem ajudar no desenvolvimento? O que sabemos sobre cães, equoterapia e outras intervenções

O contato estruturado com animais pode favorecer o movimento, participação, interação e bem-estar de algumas crianças. Entenda quando esse recurso pode ajudar, quais são seus limites e onde buscar atendimento, inclusive gratuito.

Quando pensamos em desenvolvimento infantil, é muito comum imaginarmos uma criança sentada em uma sala com um profissional, realizando atividades planejadas para determinada habilidade.

Mas o desenvolvimento não acontece apenas ali.

Uma criança aprende quando brinca, corre, tenta se equilibrar, precisa comunicar alguma coisa, percebe o próprio corpo, estabelece vínculos e participa do mundo ao seu redor. E, para algumas crianças, os animais podem fazer parte dessas experiências de uma maneira muito interessante.

Cavalos são utilizados há anos em programas de equoterapia. Existem intervenções assistidas por cães e outros animais, além dos cães de assistência treinados para desempenhar funções específicas.

São propostas diferentes e precisam ser avaliadas individualmente. Mas existe algo em comum entre elas: o animal pode funcionar como parte de uma experiência capaz de mobilizar corpo, atenção, interação e motivação.

Por que um cavalo pode ajudar o corpo?

A equoterapia talvez seja um dos exemplos mais conhecidos.

O movimento tridimensional produzido pelo cavalo durante a marcha provoca ajustes constantes de postura e equilíbrio no praticante. O corpo precisa responder continuamente àquilo que está acontecendo.

Por isso, dependendo dos objetivos e da condição da pessoa, o trabalho pode envolver equilíbrio, controle postural, coordenação, mobilidade e consciência corporal.

E existe um componente que considero muito interessante: para a criança, muitas vezes aquilo não é percebido simplesmente como um exercício.

Ela está montando, tocando o cavalo, observando o ambiente, seguindo orientações e construindo uma relação com aquele animal. O corpo está trabalhando dentro de uma experiência com significado.

No Brasil, inclusive, a equoterapia é reconhecida por lei como método de reabilitação que utiliza o cavalo em abordagem interdisciplinar nas áreas de saúde, educação e equitação.

E o que acontece com o cérebro?

Quando falamos de cérebro, precisamos fugir das promessas mágicas.

Não existe um animal que “trate o autismo” ou faça o cérebro se desenvolver simplesmente pela presença dele.

O que existe são experiências que podem favorecer determinadas habilidades.

Interagir com um animal envolve estímulos sensoriais, movimento, atenção, antecipação, comunicação e respostas emocionais. Dependendo da intervenção e dos objetivos estabelecidos pela equipe, essas situações podem ser utilizadas para trabalhar habilidades importantes para aquela criança.

Algumas pesquisas sobre intervenções assistidas por animais em crianças autistas apontam possíveis benefícios em áreas como interação social, comunicação e comportamento, mas os estudos ainda apresentam bastante variação metodológica. Portanto, é uma área promissora, mas na qual precisamos continuar produzindo evidências melhores antes de fazer afirmações muito amplas.

Eu prefiro dizer às famílias: pode ser um recurso complementar muito interessante para algumas crianças; não é uma terapia milagrosa e não será adequado para todas.

O cachorro também pode assumir funções diferentes

Aqui existe uma confusão frequente.

Uma coisa é uma intervenção assistida por animais, realizada com objetivos definidos e participação de profissionais. Outra é um cão de assistência, treinado especificamente para ajudar uma pessoa em determinadas tarefas. E outra completamente diferente é o animal de estimação da família.

Um cachorro em casa pode proporcionar companhia, afeto, brincadeiras, responsabilidades e experiências de interação. Isso pode ser maravilhoso, mas não transforma automaticamente aquele animal em um recurso terapêutico.

Também existem cães treinados para auxiliar pessoas com deficiência em tarefas específicas, conforme suas necessidades.

Por isso, antes de pensar “meu filho precisa de um cachorro”, precisamos perguntar: qual é a necessidade da criança e qual objetivo queremos alcançar?

Essa pergunta deve vir primeiro.

Nem toda criança vai gostar — e precisamos respeitar isso

Esse ponto é fundamental, especialmente quando falamos de autismo.

Algumas crianças adoram animais. Outras podem sentir medo ou apresentar grande desconforto com cheiro, pelo, latidos, movimentos imprevisíveis ou com o tamanho de um cavalo.

Não existe benefício em transformar uma experiência potencialmente positiva em sofrimento.

A aproximação, quando indicada, precisa respeitar o perfil sensorial, o interesse, a segurança e o tempo daquela criança.

O animal também precisa ser respeitado. Bem-estar animal não é detalhe: faz parte de qualquer intervenção ética.

“Mas eu não tenho condições de pagar”

Eu quis trazer esse assunto também porque, quando mostramos determinadas intervenções nas redes sociais, é fácil criar a impressão de que elas pertencem apenas às famílias que conseguem pagar por tudo.

Não necessariamente.

Existem no Brasil projetos gratuitos ou subsidiados de equoterapia e intervenções assistidas por animais, mantidos por prefeituras, universidades, instituições filantrópicas, associações e, em alguns estados, unidades ligadas às polícias militares.

A oferta não é igual em todo o país e normalmente existem critérios, encaminhamento e disponibilidade de vagas.

Por isso, vale procurar na sua cidade e no seu estado. 

Pergunte à Secretaria Municipal de Saúde, à rede de reabilitação, às universidades da região e às instituições especializadas em pessoas com deficiência. 

Pesquise também por centros de equoterapia credenciados e pergunte sobre projetos sociais ou convênios.

Às vezes, um recurso que parece inacessível está mais perto do que a família imagina.

Antes de escolher o recurso, escolha o objetivo

Essa talvez seja a orientação mais importante.

Não comece pelo cavalo. Não comece pelo cachorro. Comece pela criança.

Ela precisa desenvolver equilíbrio? Coordenação? Comunicação? Participação social? Autonomia? Existe uma questão sensorial? Motora? Emocional?

A partir da necessidade real, uma equipe qualificada poderá avaliar quais estratégias fazem sentido e se uma intervenção envolvendo animais pode fazer parte do planejamento.

Porque uma criança não precisa acumular terapias.

Ela precisa ter acesso às experiências e aos suportes que façam sentido para o seu desenvolvimento.

E, algumas vezes, esse caminho pode acontecer dentro de um consultório. Em outras, numa escola, num parque ou dentro de casa.

E pode acontecer também sobre um cavalo, ao lado de um cachorro ou simplesmente durante uma experiência que faça aquela criança querer participar um pouco mais do mundo.

Com carinho,

Mayra Gaiato –  Psicóloga e neurocientista

Compartilhe:
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Não encontrou o que precisava?

Entre em contato com a gente!