Quando falamos sobre desenvolvimento do cérebro, normalmente pensamos em crescimento: novos neurônios, novas conexões, novas habilidades. Mas existe um processo igualmente importante que acontece na direção contrária.
O cérebro também precisa eliminar conexões.
Esse processo é chamado de poda neural ou poda sináptica e faz parte do desenvolvimento normal do sistema nervoso.
Gosto de explicar que o cérebro infantil começa a vida com uma quantidade enorme de possibilidades.
Conforme a criança cresce e interage com o mundo, algumas conexões são utilizadas e fortalecidas, enquanto outras, menos recrutadas, podem ser enfraquecidas e eliminadas.
Não significa que o cérebro esteja “perdendo capacidade”.
Pelo contrário.
Essa reorganização ajuda as redes neurais a se tornarem mais eficientes e especializadas.
Para que serve a poda neural?
Imagine uma árvore com muitos galhos crescendo ao mesmo tempo. Podar alguns deles permite que a planta distribua melhor seus recursos. A comparação não é perfeita, mas ajuda a visualizar o que acontece no cérebro.
Durante o desenvolvimento, formamos uma quantidade enorme de sinapses, que são pontos de comunicação entre os neurônios. Com o tempo, o cérebro passa por períodos de refinamento dessas redes.
Isso é fundamental para funções como linguagem, aprendizagem, controle dos movimentos, atenção e desenvolvimento social e emocional.
E a poda não acontece uma única vez. Existem períodos importantes de reorganização ao longo da infância e da adolescência. O córtex pré-frontal, por exemplo, relacionado a funções como planejamento, tomada de decisão, controle dos impulsos e organização do comportamento, continua amadurecendo por muitos anos.
Então podemos “aproveitar” a poda neural?
Aqui precisamos tomar cuidado com uma ideia que aparece bastante nas redes sociais.
Não existe uma técnica para “ativar a poda neural”, nem precisamos fazer uma corrida para estimular a criança antes que determinada conexão desapareça. O cérebro não funciona dessa maneira.
O que podemos fazer é oferecer boas experiências durante períodos em que o cérebro apresenta grande plasticidade.
Uma criança aprende linguagem ouvindo e participando de conversas.
Desenvolve habilidades motoras movimentando o corpo.
Aprende a brincar brincando.
Desenvolve habilidades sociais convivendo, observando, experimentando e recebendo ajuda quando necessário.
O cérebro se organiza a partir daquilo que vive.
O que significa isso na prática?
Não precisamos transformar a infância em uma agenda de estimulação.
Aliás, excesso de atividades não significa necessariamente melhor desenvolvimento.
Brincar livremente, correr, subir, desenhar, montar blocos, ouvir histórias, conversar durante uma refeição, participar de pequenas tarefas de casa e ter contato com outras crianças são experiências extremamente ricas para o cérebro.
Também precisamos lembrar da importância do sono, da atividade física e dos vínculos afetivos. O desenvolvimento cerebral não acontece somente quando alguém está “ensinando” alguma coisa à criança.
Muitas das aprendizagens mais importantes acontecem no cotidiano.
E quando a criança apresenta alguma dificuldade?
É aí que conhecer a plasticidade cerebral se torna especialmente importante.
Se uma criança apresenta atraso de linguagem, dificuldade de comunicação, alterações motoras ou outros sinais de atraso no desenvolvimento, não faz sentido simplesmente esperar indefinidamente para ver se ela “alcança” as outras crianças.
Uma avaliação adequada ajuda a identificar quais habilidades precisam de maior suporte. A intervenção precoce aproveita justamente uma fase em que o cérebro apresenta enorme capacidade de aprendizagem e reorganização.
Mas intervenção precoce não significa bombardear uma criança com estímulos.
Significa ensinar aquilo que ela precisa aprender, de maneira individualizada, funcional e adequada ao seu desenvolvimento.
Poda neural e autismo: existe relação?
Esse é um campo muito interessante da neurociência.
Pesquisas vêm investigando há anos se diferenças nos processos de formação, manutenção e eliminação de sinapses podem estar relacionadas ao autismo. Alguns estudos encontraram diferenças em mecanismos envolvidos na poda sináptica e na organização das redes neurais em pessoas autistas.
Mas precisamos ser cuidadosos com a interpretação.
Não podemos simplesmente dizer que “o autista não faz poda neural” ou que o autismo acontece porque o cérebro “não eliminou conexões suficientes”. O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento extremamente complexa, envolvendo múltiplos fatores genéticos e biológicos, e essa área continua sendo investigada.
A neurociência raramente cabe em uma frase de efeito.
Afinal, como ajudar o cérebro infantil a se desenvolver?
Talvez a melhor resposta seja também a mais simples.
Ofereça oportunidades.
Converse com a criança, leia histórias, brinque, permita que ela explore ambientes seguros, incentive movimentos, apresente experiências diferentes e observe aquilo que desperta seu interesse. Quando houver alguma dificuldade no desenvolvimento, procure avaliação e ofereça o suporte necessário.
Não precisamos tentar controlar quais sinapses o cérebro manterá ou eliminará.
Nosso papel é construir um ambiente rico em experiências, relações e oportunidades de aprendizagem para que esse cérebro possa fazer aquilo que sabe fazer muito bem: adaptar-se, aprender e se reorganizar.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas do neurodesenvolvimento. O cérebro infantil não é uma estrutura pronta esperando apenas crescer. Ele está sendo construído e refinado todos os dias, em diálogo constante com as experiências que a criança vive.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista